OBRIGADO PELA VISITA

O LABORATÓRIO SIDERAL leva até você, somente POSTAGENS de cunho cultural e educativo, que trata do universo; das gentes; das lendas; das religiões e seus mitos, e de forma especial, dos grandes mistérios que envolvem nosso passado. Contém também muitos textos para sua meditação. Tarefa difícil, mas atraente. Neste Blog não há bloqueio para comentários sobre qualquer postagem.

A FOTO ACIMA É A VISÃO QUE TEMOS DA CHAPADA DO ARARIPE, A PARTIR DA NOSSA "VILA ENCANTADA".

segunda-feira, 30 de junho de 2014

A DIVINA COMÉDIA - INFERNO - CANTO XXXI - Por Vicente Almeida

Gigantes - Nemrod - Efialte - Anteu.

Dando as costas àquele vale miserável, escalamos o rochedo e chegamos à última beira, que atravessamos em silêncio. A escuridão era imensa e meus olhos podiam ver muito pouco, quando ouvi uma trombeta soar tão forte que parecia o som de um trovão. O estrondo me fez voltar o olhar para o horizonte onde percebi o que pareciam ser torres de uma cidade.

- Mestre - perguntei a Virgílio -, que cidade é aquela?

- A escuridão o impede de ver o que realmente são essas torres. - respondeu - Não é uma cidade. O que vês são as silhuetas de gigantes que estão dentro do poço e, por serem tão altos, parte do seu corpo desponta além do nível deste círculo.

Dito isto, continuamos a caminhar na direção das "torres". À medida em que nos aproximávamos da beira do poço, a neblina se tornava menos densa e os gigantes começavam a tomar forma, aparecendo à minha vista ao mesmo tempo em que o meu medo crescia. Finalmente pude distinguir um dos rostos, os ombros, os braços, o peito e boa parte do ventre de um deles. O rosto, acredito, era tão largo quando a cúpula de São Pedro em Roma, e em igual proporção era todo o resto de seu corpo.

- Raphael may amech zabi almi - gritou o gigante.
O gigante Nemrod, a quem Dante atribui como construtor da Torre de Babel
- Ó alma tola - respondeu Virgílio - fica com essa tua trompa, que está presa a teu peito, e faze uso dela para descarregar tua raiva! - e depois voltou-se para mim - Ele mesmo se acusa. Ele é Nemrod, o construtor da torre de Babel. Para ele, língua alguma faz sentido, portanto vamos deixá-lo pois é perda de tempo tentar falar com ele.

Deixamos Nemrod e viramos à esquerda, prosseguindo pela beirada, até encontrarmos mais adiante outro gigante acorrentado. Sua mão esquerda estava atada na frente, sua mão direita estava presa atrás e uma enorme corrente o apertava, dando cinco voltas do pescoço até a cintura, até onde eu pude ver.
Efialte acorrentando por atentar contra os deuses - Ilustração de Paul Gustave Doré.
- Ele quis provar que era melhor que Jove - disse-me o mestre - e aqui tem a sua recompensa. É Efialte, cujos braços que antes moveu contra os deuses agora permanecem imóveis.

- Se for possível - disse eu -, gostaria de conhecer o descomunal Briareu.

- Não muito longe daqui - disse o mestre -, tu verás Anteu, que está solto e falante. Será ele que irá nos levar até o fundo. Aquele que queres ver está muito longe. Ele também está amarrado e se parece muito com este aqui, embora tenha uma aparência mais assustadora.

De repente Efialte se sacudiu de uma forma como nunca vi torre alguma tremer, nem nos piores terremotos. Eu teria morrido do susto se eu não tivesse antes visto a corrente que o prendia, e que me dava confiança.

Continuamos pelo nosso caminho até pararmos diante do gigante Anteu. Meu mestre elogiou seus feitos e depois pediu com cortesia:

- Anteu, este que está comigo pode espalhar tua fama pelo mundo, pois ainda vive. Para que ele não precise recorrer a Tifeu ou a Tício, te peço que nos leve lá para baixo, onde o frio do Cócito congela.

Assim falou o mestre e o gigante estendeu as mãos para que nelas subíssemos. Virgílio subiu primeiro. Quando já estava seguramente apoiado na mão de Anteu ele me chamou e me suspendeu.

Assim que o gigante se inclinou eu me senti como se estivesse em uma torre que estava prestes a desabar. Mas o medo durou pouco. Cuidadoso, Anteu nos deixou no fundo daquele poço gelado. Depois que estávamos seguros sobre o chão, ele se levantou e se foi.
Anteu ajuda Dante e Virgílio na descida ao nono círculo (Lago Cócito) - Ilustração de Paul Gustave Doré, Século XIX.
No Canto XXXII veremos Lago Cócito - Caína - Antenora - Espírito de Bocca.
Vicente Almeida
30/06/2014

quarta-feira, 25 de junho de 2014

A DIVINA COMÉDIA - INFERNO - CANTO XXX - Por Vicente Almeida

Falsificadores - Impostores - Perjuros
No Inferno, segundo Dante, a crueldade não tem limites - Ilustração de William Adolphe
Nem entre os loucos mais insanos se viu fúria e crueldade como aquela que se apossou de duas sombras pálidas, nuas, que se perseguiam pelo vale escuro como porcos soltos nas pocilgas. Uma delas afundou os dentes no pescoço de Capocchio e saiu arrastando-o para longe, esfolando seu ventre no chão áspero.

Ficou o alquimista de Arezzo, tremendo, que me disse:

- Aquele louco é Gianni Schicchi. Ele vive sempre assim raivoso e nos maltrata o tempo todo.

- Oh! - disse-lhe - Tomara que aquele outro não te morda também, mas, antes que ele se vá, dize-me quem é.

- Aquela é Mirra - disse -, a princesa depravada, que se tornou amante do seu próprio pai se passando por outra e assim enganou o rei. Da mesma maneira agiu Gianni, que se fez passar por Buoso Donati no seu leito de morte, falsificando o testamento em seu favor.
Mirra, a princesa depravada - Ilustração de Paul Gustave Doré
Depois que se foram os dois loucos raivosos, dos quais não desgrudei o olhar, voltei a minha atenção às outras almas. Vi então um deformado que parecia um violão. Seu corpo estava inchado por uma hidropisia tão grave que ele não conseguia se mover. A sua boca permanecia sempre aberta pois não conseguia fechá-la. Um lábio se recolhia para cima e o outro pendia, solto e pesado. Ao perceber que eu o olhava, ele falou:
Mestre Adamo o falsificador de dinheiro - Ilustração de Giovanni Stradano
- Ó vós que, não sei por que, não sofrem flagelo algum, vede aqui a miséria do mestre Adamo. Em vida, tive tudo o que quis e agora, eu faço qualquer coisa por uma gota d'água. A imagem das fontes e rios que descendem ao Arno me assombra eternamente e isto mais me castiga que o mal que resseca o meu rosto descarnado.

Fui eu quem falsificou a moeda cunhada com o Batista e por isto fui torrado na fogueira. O que eu mais queria era encontrar por aqui as almas malditas de Guido, Alessandro e seu irmão. Foram eles que me incentivaram a cunhar o florim com três quilates a menos. Dizem os raivosos que um dos malditos já chegou. Se eu fosse ligeiro o suficiente para me mover pelo menos uma polegada a cada cem anos eu já teria começado a procurá-lo, mesmo sabendo que é preciso percorrer 11 milhas para dar uma volta completa nesta vala, que pelo menos meia milha tem de largura.

- Quem são essas almas que fumegam ao teu lado? - perguntei.

- Elas já estavam aqui quando eu cheguei - respondeu - e, desde então, nunca se moveram. Ela é a falsa que acusou José do Egito. Este outro é o falso Sinón, o grego que mentiu em Tróia. Este fedor exalam por causa de sua febre aguda.

Sinón, talvez ofendido pelas palavras de Adamo, juntou as forças, levantou-se e o golpeou. O mestre Adamo retaliou imediatamente atingindo-lhe o rosto com o braço, e disse:

- Embora eu não possa caminhar por este vale, minha mão é livre para o que for preciso.

- Mas ela não estava tão livre quando tu seguias para a fogueira, estava? - respondeu irado o outro - Mas a tinhas muito bem quando cunhavas!

- Agora dizes a verdade, mas não fostes tão verdadeiro em Tróia! - respondeu Adamo.

- Minhas palavras foram falsas, assim como as moedas que fizestes! - gritou Sinón.

E assim os dois começaram uma interminável discussão, e eu permaneci, parado, absorvido pela briga, até que o mestre gritou, irritado:

- Vai, continua olhando! Mais um pouco e eu perco a paciência!

Fiquei tão envergonhado com a repreensão que mal consegui pedir desculpas. O mestre percebeu, e me disse:

- Menos vergonha que essa tua já seria suficiente para lavar falta maior. Deixa para lá, esquece! Mas lembra, se outra vez estiveres exposto a tais situações, cuides de procurar o meu apoio. Querer ouvir tais rixas é gostar de baixaria.
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Obs: Este é o último Canto em que a nudez da alma é explicitamente exposta pelos pintores e ilustradores do Poema.

NO Canto XXXI veremos Gigantes - Nemrod - Efialte - Anteu.
Vicente Almeida
25/06/2014

sexta-feira, 20 de junho de 2014

A DIVINA COMÉDIA - INFERNO - CANTO XXIX - Por Vicente Almeida

Vala dos falsários - Alquimistas

Tanta gente ferida e sofrendo deixaram meus olhos inundados de lágrimas. Virgílio notou e me perguntou:

- O que procuras? Por que olhas tanto para essa gente? Nos outros fossos isto não aconteceu. Se quiseres contar todos, lembra-te que o vale se estende por 22 milhas e a lua já se encontra aos nossos pés. Vamos andando porque o tempo é curto e há muito mais para ver adiante.

- Se soubesses o que eu estava procurando, talvez tivesses deixado eu permanecer por mais tempo. - falei e continuei a seguir o mestre, que não parou para me ouvir. Acrescentei - Dentro daquela vala, onde eu mantinha o olhar, acredito que esteja um espírito da minha família, a chorar pela sua culpa aqui punida.

- Não tenhas tal preocupação com ele pois ela não é recíproca. - respondeu o mestre. - Quando estávamos lá ao pé da ponte pude vê-lo te ameaçar com o dedo erguido e prestei atenção quando falaram seu nome: "Geri del Bello". Tu não ouviste porque estavas demais entretido com a cabeça falante de Bertran de Born.

- Ó mestre meu, a violenta morte que não lhe foi vingada - disse eu -, o deixou indignado, acredito, e foi essa a razão pela qual se escondeu sem querer falar comigo. É por isso que sinto pena e tristeza por ele.
Continuamos a conversar até chegarmos a um ponto, desde a ponte, onde já era possível avistar o vale inteiro. Só o vale. Dentro dele não se via nada por causa da escuridão. Quando finalmente estávamos no meio da ponte que atravessa este último claustro do Malebolge pudemos vê-lo por completo, e ouvir gritos tão terríveis que me levaram a cobrir os ouvidos.

Amontoados naquela vala estavam centenas de doentes, com seus membros apodrecendo como leprosos. O ar estava dominado por um cheiro forte de carne podre.
Descemos por uma via à esquerda da saída da ponte até chegar a um ponto onde se tinha uma visão mais nítida daquele poço, onde são punidos os falsários.

A visão era terrível.

Por todo o vale se estendiam montes de espíritos empilhados, tão cansados que mal se moviam.

Uns se estiravam, de bruços ou de costas, sobre os corpos dos outros. Outros se arrastavam, lentamente, com dificuldade.

Passo a passo andávamos sem dizer uma palavra, vendo aquelas almas doentes, incapazes de levantar seus corpos deformados. Vimos dois pecadores sentados, um de costas para o outro, com os corpos totalmente cobertos de sarnas.

Eles se coçavam freneticamente, afundando suas unhas na pele e tentando, em vão, atenuar a coceira que nunca cessava.

- Tu que arrancas tua pele com as unhas - dirigiu-se Virgílio a uma das almas - dize-me se existe algum latino aqui presente, para que tuas unhas possam servir a esse teu trabalho eternamente.

- Latinos somos nós que tu vês aqui, desfigurados. - respondeu um deles chorando - Mas quem és tu e por que nos perguntas?

- Sou o guia deste ser vivente - respondeu o mestre - e aqui desci com a intenção de mostrar-lhe todo o inferno.

Com a explicação, ambos viraram-se, lentamente, na minha direção. O mesmo fizeram outros, mais distantes, que ouviram essas palavras. O mestre então pediu que eu fizesse as perguntas que desejasse.

- Para que a memória de vós não desapareça das mentes dos homens no mundo primeiro - falei -, dizei-me quem sois e de onde viestes.

- Eu fui alquimista de Arezzo e este aqui é Alberto, que me condenou à fogueira. Eu lhe disse brincando que eu sabia levitar e ele, insatisfeito por eu não tê-lo transformado em um Dédalo, reclamou ao seu protetor, que me mandou queimar. Mas não foi por isto que estou aqui. Por ter no mundo usado a alquimia, Minós não se enganou e me colocou aqui, entre os falsários.

Eu comentava com o mestre sobre a ingenuidade do povo de Siena quando outro, que me ouvira falar, se aproximou e disse:

- Se achas mesmo isto do sienenses, então olha pra mim. Eu sou Capocchio, que falsificava metais e moedas. Deves lembrar-te de mim e saber que eu não era nada ingênuo pois falsificava muito bem.
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No Canto XXX veremos Falsificadores, Impostores e Perjuros.
Vicente Almeida
20/06/2014

domingo, 15 de junho de 2014

A DIVINA COMÉDIA - INFERNO - CANTO XXVIII - Por Vicente Almeida

Vala dos separatistas
Espíritos de Maomé e Bertran de Born

Quem poderia, mesmo fazendo uso da melhor prosa, narrar as cenas de sangue e das feridas, que eu vi naquele triste lugar? Todas as línguas, por certo, estariam falidas, pois nossa memória e nosso vocabulário não são suficientes para compreender tamanha dor. Nem nos campos de batalha das piores guerras se viu tantos corpos estraçalhados, com deformações e feridas tão terríveis, quanto os que povoavam aquela nona vala.

Próximo a nós estava um condenado com as entranhas à vista, rasgado do nariz à garganta e com os intestinos pendurados entre as pernas. Eu o olhava, hesitante, quando ele, me olhando de volta, rasgou o peito com as mãos dizendo:

- Vês, tu, como eu me maltrato? Vês como Maomé e Ali estão desfeitos, gemendo, e todos esses semeadores de discórdias e heresias? Todos aqui são continuamente rasgados, cruelmente, por um diabo que aqui nos tortura eternamente. Em vão saram as feridas, pois logo ele volta e nos dilacera outra vez! - depois me perguntou - E tu, quem és, tentando retardar a tua pena aí sobre a ponte?
 
- Nem morte ainda o alcançou, nem culpa ordena que ele sofra aqui - respondeu Virgílio -, mas para que ele possa ter esta experiência, eu, que estou morto, devo guiá-lo por todo este inferno de giro em giro. Isto é tão verdadeiro como a minha presença aqui.

Quando ouviram essas palavras, mais de cem almas se aproximaram para me ver, quase esquecendo por um momento o seu intenso sofrimento.

- Diga ao Frei Dolcino - falou Maomé - que ele se abasteça de mantimentos e não saia do seu refúgio nas montanhas, se ele não tiver pressa em me encontrar. Se não tomar esses cuidados, o bispo de Novarra certamente o vencerá!

Depois de falar, Maomé se levantou e saiu. Veio então outro que tinha a garganta furada, o nariz totalmente decepado e apenas uma orelha inteira. Ele se separou do grupo e abriu sua goela vermelha, que falou:
- Ó tu que vi na sua terra latina, lembra-te de Pier de Medicina quando voltares, e avisa a Guido e Angiolello que, se nossa visão é certa, eles serão arrancados do seu barco e afogados perto de Cattólica, por traição de um tirano cruel. Aquele traidor, que só vê por um olho, reina sobre uma cidade que alguém aqui deseja nunca ter visto.

- Quem é aquele que nunca deseja ter visto a cidade onde reina o tirano? - perguntei.

- É este aqui. Mas ele não fala nada! - disse Pier, mostrando um companheiro calado e assustado, cuja boca ele abriu com a mão. - Este homem, no exílio, acabou com as dúvidas de César quando lhe disse: "O homem preparado, quando hesita, perde."

Oh, como ele parecia assustado, com a língua presa na garganta, Cúrio, que antes fora tão grande orador.

Um outro, com ambas mãos truncadas, levantou os cotos no ar, espalhando sangue sobre seu rosto, e gritou:

- Recorda o pobre Mosca, que disse "o que está feito, está feito" que para os toscanos foi semente tosca!

- E para a tua casta será a morte! - respondi-lhe, irritado, e ele, com mais essa ferida, retirou-se.

Continuei a observar a multidão quando vi um corpo que caminhava sem cabeça. Ele segurava sua cabeça pelos cabelos, balançando-a como lanterna. Quando chegou junto da ponte, ergueu alto o braço que a segurava, para que sua fala pudéssemos ouvir melhor:
Com a cabeça na mão está Bertrand de Born - Ilustração de Gustave Doré Seculo XIX
- Sou Bertran de Bórnio - gritou -, e sofro esta pena monstruosa por ter instigado o jovem rei contra seu pai. Eu pus o pai contra o filho e por ter separado aqueles antes tão unidos, tive o meu cérebro separado do meu tronco. E assim, em mim tu vês, o perfeito contrapasso.

No Canto XXIX veremos a vala dos falsários e alquimistas.
Vicente Almeida
15/06/2014

terça-feira, 10 de junho de 2014

A DIVINA COMÉDIA - INFERNO - CANTO XXVII - Por Vicente almeida

Espírito do Frade Guido de Montefeltro

A chama agora estava imóvel e quieta. Nada mais falou e já se afastava com a licença do poeta quando uma outra, que vinha logo atrás, chamou nossa atenção à sua ponta que liberava ruídos estranhos. A ponta começou a mover-se, como se fosse uma língua, até que ouvimos:

- Ó tu a quem dirijo a minha voz, que falavas há pouco em lombardo, dizendo: "Podes ir, não te peço mais nada", embora tenha eu demorado em chegar a ti, não te incomodes se eu falar contigo, pois vês que não incomoda a mim, que estou ardendo em chamas! Se tu acabas de cair do mundo, daquela doce terra latina, dize-me, está a Romanha em paz ou em guerra?

Eu ainda escutava a chama falar quando o mestre me cutucou e disse:

- Fala tu, pois este é latino! é o frade Guido de Montefeltro

E eu, que já estava preparado para lhe responder, comecei:

- Ó tu que te escondes nessa chama, no coração dos seus tiranos tua Romanha sempre esteve em guerra, mas quando eu a deixei, ela não estava envolvida em conflitos. Ravena está como há muitos anos e a águia de Polenta já estica suas asas sobre a Cérvia. O mastim novo de Verrucchio, assim como o velho, continuam a sugar o sangue de seu povo.

Falei-lhe ainda de Forli, Lamone, Santerno e outras cidades da Romanha. No final, lhe pedi:

- Agora peço que me conte quem és, para que eu possa estender, no mundo, a tua fama.

- Se eu acreditasse que eu estava falando com uma alma que iria voltar ao mundo, esta chama não mais se moveria, mas como nunca, deste abismo, alma alguma jamais escapou, sem medo de infâmia eu te respondo. Fui guerreiro e depois frade franciscano, acreditando que assim poderia corrigir os meus erros do passado.

Arrependi-me dos meus pecados e confessei meus erros. Ai miserável! E bem teria valido se não fosse aquele príncipe dos novos fariseus (papa Bonifácio VIII), que me pediu para ajudá-lo a destruir a fortaleza Perestrina. Para ele, não importava o cargo supremo que ocupava, nem os votos sagrados e nem o cordão que eu usava.

Ele me pediu conselho, e eu calei. Mas depois falou de novo: "Não sejas desconfiado! Eu já te absolvo dos pecados que vieres a cometer. O céu eu posso fechar ou abrir, como tu sabes, pois são duas as chaves que meu antecessor não soube guardar."

Eu, convencido pelos seus argumentos, aceitei, e disse: "Padre, desde que me absolvas do pecado que estou prestes a cometer, te aconselharei: Prometa a eles, anistia. Depois, quando obedecerem, volte atrás e não cumpra a promessa! Se assim fizeres, triunfarás!"

No momento da minha morte, São Francisco veio buscar minha alma, mas antes que ele pudesse me levar um querubim negro se antecipou e, utilizando argumentos lógicos, demonstrou que eu deveria ir para o inferno: "Para baixo ele virá comigo, pois deu conselho fraudulento. Não se pode absolver o impenitente, nem pode o arrependido ainda querer pecar, pois assim nada vale seu arrependimento."

Coitado de mim. Quando ele me tomou ainda falou: "Nem imaginavas que eu pudesse argumentar tão bem, não foi?" O demônio me levou até Minós, que se enrolou no rabo oito vezes e, de tanta raiva ainda o mordeu, me enviando a esta oitava vala para ser prisioneiro do fogo eterno.

Depois que concluiu o seu relato, a chama calou-se e se afastou, torcendo e debatendo o corno agudo. Eu e o mestre dali partimos, subindo pela escarpada para o arco seguinte, que atravessa o fosso onde pagam suas penas aqueles que as ganharam desunindo.

No Canto XXVII veremos a Vala dos separatistas e Espíritos de Maomé e Bertran de Born.
Vicente Almeida
10/06/2014


quinta-feira, 5 de junho de 2014

A DIVINA COMÉDIA - INFERNO - CANTO XXVI - Por Vicente Almeida

Vala dos maus conselheiros

Alegra-te Florença pois és tão grande que até pelo inferno o teu nome se expande! Cinco eminentes florentinos encontrei naquele fosso, o que me fez sentir vergonha de ti.

Subimos pela escada de pedras que havia sido o caminho pelo qual havíamos descido. Ele ia na frente e me puxava rochedo acima, apoiando-se nas rachaduras, por onde o pé não podia avançar sem a mão.
Subida em escada de pedras - ilustração Gustave Doré
A oitava vala resplandecia de chamas. Isto pude ver quando meus pés chegaram a um ponto onde o fundo já aparecia. As chamas não estavam imóveis. Elas se moviam continuamente como gente o que me levou a imaginar que mantinham em sua custódia um pecador. O meu guia, como sempre adivinhando meu pensamento, confirmou:

- Em cada fogo há um espírito que é torturado pelo fogo incessante.

Alma em chamas - ilustração Gustave Doré
- Ó mestre - perguntei -, isto que acabas de falar eu já tinha adivinhado, mas dize-me quem está naquele fogo duplo, com uma chama dividida em duas pontas?

- Naquela chama - respondeu - sofrem dura pena Ulisses e Diomedes. Naquela chama se arrependem de ter tramado o logro do cavalo de Tróia e o roubo do Paládio.

- Podem eles falar através do fogo? - perguntei.

- Sim - respondeu o mestre -, mas deixa que eu fale, pois, sendo gregos, podem te desprezar.

Chegou o fogo a um lugar propício e o mestre se aproximou, perguntando:

- Ó vós que são dois dentro de uma única chama, se mereci de vós o meu viver, se mereci de vós alguma fama, quando no mundo meus altos versos escrevi, não vos moveis, mas que um de vós me diga onde foi perdido, para morrer.

A ponta maior da chama logo cresceu e começou a se agitar, e, como se fosse uma língua ondulando, virou-se para nós e falou:

- Quando descobri que nada podia impedir minha ânsia de viajar e conhecer o mundo, nem ternura de filho ao velho pai, nem o amor da minha Penélope, decidi explorar o mar aberto e profundo, acompanhado de minha tripulação fiel.

Passamos da Espanha e Marrocos, e continuamos além dos pilares que por Hércules foram fixados, sinalizando aos homens que daquele ponto não passassem. Navegamos em mar aberto por cinco meses, com a vela sempre à esquerda, até que vimos no horizonte uma enorme montanha.

Mesmo distante, apagada e escura, nunca eu vira outra assim tão grande. Mas nossa alegria durou pouco e logo transformou-se em pranto. Da nova terra saiu um grande redemoinho que atingiu a nossa embarcação na popa. Três vezes o barco rodou até que na quarta fomos sepultados nas profundezas do oceano.
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No Canto XXVII veremos o espírito do Frade Guido de Montefeltro;
Vicente Almeida
05/07/2014