OBRIGADO PELA VISITA

O LABORATÓRIO SIDERAL leva até você, somente POSTAGENS de cunho cultural e educativo, que trata do universo; das gentes; das lendas; das religiões e seus mitos, e de forma especial, dos grandes mistérios que envolvem nosso passado. Contém também muitos textos para sua meditação. Tarefa difícil, mas atraente. Neste Blog não há bloqueio para comentários sobre qualquer postagem.

A FOTO ACIMA É A VISÃO QUE TEMOS DO NOSSO INCANSÁVEL PICA PAU, ABUNDANTE AQUI NA MATA DA NOSSA "VILA ENCANTADA".

sábado, 19 de abril de 2014

A DIVINA COMÉDIA - Por Vicente Almeida

RECESSO

Mais uma vez suspenderemos por trinta dias, a publicação dos Cantos sobre o inferno, integrantes do Poema "A DIVINA COMÉDIA", de Dante Alighieri.

Esta decisão tem a finalidade de deixar o leitor mais à vontade para uma análise sobre o poema e seu autor. Assim será fácil entender sua mensagem contida neste decantado poema que tem atravessado séculos.

Aqui o autor estabelece um sofrimento especial e eterno para cada espécie de pecado cometido pela alma do pecador que, quando vivo desobedeceu as regras do amor fraterno entre os homens.

O sofrimento eterno descrito por Dante em seu poema foi assim fundamentando, por que na época em que viveu, a igreja já havia disseminado no mundo cristão a ideia da eternidade das penas sem possibilidade de remissão.

Sobre o autor de "A Divina Comédia"

Dante viveu em uma época turbulenta em que a igreja mostrava acintosamente seus tentáculos. Naqueles tempos, o poder da igreja era quase absoluto inclusive sobre reis e rainhas.

A igreja sempre decidiu suas crenças através de dogmas e impunha essa decisão a todos os que professavam o cristianismo, ao mesmo tempo em que tentava abolir da face da terra, pela força, o paganismo e outras formas de religião.
Dante Alighieri
Dante Alighieri nasceu em Florença, em 1º de junho de 1265 e morreu em Ravena a 13 ou 14 de setembro de 1321.

Foi escritor, poeta e político. É considerado o primeiro e maior poeta da língua italiana. Disse Victor Hugo que o pensamento humano atinge em certos homens a sua completa intensidade, e cita Dante como um dos que "marcam os cem graus de gênio". E tal é a sua grandeza que a literatura ocidental está impregnada de sua poderosa influência, sendo extraordinário o verdadeiro culto que lhe dedica a consciência literária ocidental.

Foi muito mais do que literato: numa época onde apenas os escritos em latim eram valorizados, redigiu um poema, de viés épico e teológico, "La Divina Commedia" - A Divina Comédia.

O grande poema de Dante, que é uma das obras-primas da literatura universal e um dos pontos mais altos atingidos pelo espírito humano.

Essa obra foi originalmente intitulada "Commedia" e mais tarde foi rebatizada por Giovanni Boccaccio com o adjetivo "Divina".

A primeira edição que adicionou o novo título foi a do humanista veneziano Lodovicco Dolce, publicada em 1555 por Gabriele Giolito de Ferrari.

Nasceu em Florença, onde viveu a primeira parte da sua vida até ser injustamente exilado. O exílio foi ainda maior do que uma simples separação física de sua terra natal: foi abandonado por seus parentes. Apesar dessa condição, seu amor incondicional e capacidade visionária o transformaram no mais importante pensador de sua época.

A "Divina Comédia" descreve uma viagem de Dante através do Inferno, Purgatório, e Paraíso, primeiramente guiado pelo poeta romano Virgílio, símbolo da razão humana, autor do poema épico "Eneida", através do Inferno e do Purgatório e, depois, no Paraíso, pela mão da sua amada Beatriz - símbolo da graça divina,com quem, presumem muitos autores, nunca tenha falado e, apenas visto, talvez, de uma a três vezes.

Os outros dois livros, o "Purgatório" e o "Paraíso", já exigem outra abordagem por parte do leitor: contêm subtilezas ao nível filosófico e teológico, metáforas dificilmente compreensíveis para a nossa época, requerendo alguma pesquisa e paciência.

O Purgatório é considerado, dos três livros, o mais lírico e humano. É interessante verificar que é, também, aquele onde aparecem mais poetas.

O Paraíso, o mais pesadamente teológico de todos, está repleto de visões místicas, raiando o êxtase, onde Dante tenta descrever aquilo que, confessa, é incapaz de exprimir - como acontece, aliás, com muitos textos místicos que fazem a história da literatura religiosa.

O poema apresenta-se, como "poema sagrado" o que demonstra que Dante leva muito a sério o lado teológico e, quiçá, profético, da sua obra.



A Comédia é o maior símbolo literário e síntese do pensamento medieval, vivenciado pelo autor. O poema chama-se "Comédia" não por ser engraçado mas porque termina bem - no Paraíso. Era esse o sentido original da palavra Comédia, em contraste com a Tragédia, que terminava, em princípio, mal para os personagens.

As crenças populares cristãs adaptaram muito do conceito de Dante sobre o inferno, o purgatório e o paraíso, como por exemplo o fato de que cada tipo de pecado merece uma punição distinta, no inferno, penas eternas, no purgatório penas temporárias e no paraíso a alma virtuosa sente e vive na presença de DEUS.
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Em trinta dias estaremos de volta com o Canto XXIII, quando Dante e Virgílio chegarão a vala dos hipócritas.
Vicente Almeida
19/04/2014

terça-feira, 15 de abril de 2014

A DIVINA COMÉDIA - INFERNO - CANTO XXII - Por Vicente Almeida

Escolta dos dez demônios

Os dez demônios que escoltaram Dante e Virgílio - Ilustração de Giovenni Stradano - Século XVI

Seguimos com os dez demônios. Durante a nossa jornada eu pude ter uma noção melhor de todo o vale e do breu fervente. Observei que, como os golfinhos que mostram suas costas acima da água, eventualmente um pecador mostrava as suas para aliviar por um instante seu sofrimento, e logo tornava a mergulhar. Outros ficavam à beira da fossa, mas submergiam assim que Barbariccia aparecia.

Vi então um pecador que, vacilante, demorou para retornar à calda fervente. Antes que o coitado pudesse submergir, Graffiacane o capturou agarrando-o pelos cabelos. Os diabos gritavam:

- Ó Rubicante! Enfia tuas garras nas costas dele! Esfola! Rasga a pele!!

Enquanto os demônios gritavam, eu voltei-me para o mestre e perguntei:

Diabo fazendo o pecador retornar ao mar de breu fervente -Ilustração de Paul Gustave Doré
- Mestre, se puderes, descubra quem é este desgraçado que caiu nas mãos de seus adversários.

Meu guia se deslocou até o pecador, perguntou de onde viera, e ele respondeu:

- Eu nasci e fui criado no reino de Navarra. Depois fui servo do bom rei Tebaldo e lá aprendi a arte da barataria. Agora pago a conta neste caldo quente.

Ciriatto, que tinha duas presas no rosto que nem javali, fez-lhe sentir como uma só poderia rasgá-lo. Mas Barbariccia interveio, agarrando-o.

- Aproveita enquanto eu o seguro! - disse Barbariccia a Virgílio - Se quiseres que ele fale mais, continue a interrogá-lo antes que os outros o dilacerem.

- Então dize-me - continuou Virgílio - conheces algum latino lá embaixo?

- Eu estava com um agora há pouco. Queria eu estar lá embaixo com eles para não receber estas garfadas.

- Já esperamos demais! - gritou Libicocco, que com um garfo arrancou-lhe um pedaço do braço. Draghinazzo já ia furá-lo com o quinhão mas desistiu assim que percebeu que o decurião Barbariccia olhava para ele, irritado.

- Mas quem é aquele com quem disseste estar há pouco no caldo fervente? - continuou o mestre. - Era o frei Gomita de Gallura, soberano especulador. - respondeu o condenado - Vive ele a conversar com Dom Michel Zanche sobre a Sardenha. Ai! Mas olha só o diabo como ri! E apontava para um demônio bem próximo olhando para ele. Eu poderia te falar mais, mas temo que esse demônio se zangue e venha me torturar!

Mas Barbariccia virou-se para Farfarello, que já avançava, gritando:

- Te afasta, ave de rapina nojenta!

- Se quiseres ver toscanos e lombardos - continuou o pecador -, eu os farei vir aos montes! É preciso, porém, que os Malebranche se afastem, pois eles os temem. Eu, sozinho, sem sair deste lugar, farei vir sete deles com um simples assobio. É o nosso sinal para indicar que algum de nós está fora.

- Olha só a trapaça que ele armou para escapar! - disse Cagnazzo, rindo e sacudindo a cabeça.

- Trapaceiro eu sou - respondeu o esperto -, especialmente se for para trazer desgraça aos meus companheiros.

Mas Alichino queria ver para crer e o desafiou:

- Se tu mergulhares eu não correrei atrás de ti, pois tenho asas para te alcançar. Nós te deixaremos livre e ficaremos atrás do vale. Veremos se és mais rápido que nós.

E então todos tomaram o rumo do vale, começando com o que se opunha àquele jogo. Astuto, o corrupto saltou e conseguiu fugir. Alichino não conseguiu alcançá-lo. Calcabrina, irado, correu atrás também, torcendo que o danado escapasse para armar uma briga com Alichino.

Assim que o pecador submergiu ele saltou em cima do seu irmão, e ambos se enroscaram no ar sobre o piche. Os dois começaram a se mutilar com suas garras até que caíram na pez fervente. O calor foi suficiente para separá-los, mas não conseguiam sair do poço, pois suas asas estavam encharcadas. Saíram então todos os outros diabos para os socorrer.

E lá os deixamos, naquela confusão, e continuamos sozinhos.
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No Canto XXIII veremos a vala dos hipócritas.
Vicente Almeida
15/04/2014

quinta-feira, 10 de abril de 2014

A DIVINA COMÉDIA - INFERNO - CANTO XXI - Por Vicente Almeida

Vala dos corruptos - Malebranche (demônios)

De cima de outra ponte paramos para ver a próxima fissura de Malebolge, que era incrivelmente escura.
Diabo conduzindo nas costas uma alma para jogá-la no breu fervente - Ilustração de Paul Gustave Doré 
Lá embaixo um grosso breu fervia. Eu olhava mas nada via a não ser as bolhas de piche que a fervura levantava. 

Enquanto meus olhos procuravam alguma coisa naquela escuridão, meu guia gritou:

- Cuidado, cuidado! - e logo me arrancou do lugar de onde eu estava.

Voltei-me e vi logo atrás um diabo preto que corria em nossa direção. Ai, mas como ele tinha um aspecto feroz! Com suas asas abertas ele corria ligeiro com os pés. Levava um pecador no seu ombro pontiagudo, que pelos tendões dos pés tinha seguro. Parou diante da pez fervente, e gritou:

- Ó Malebranche, aqui está mais um daqueles anciões devotos de Santa Zita. Cuida dele pois eu vou buscar outros. 

Quase todos naquela terra são corruptos, exceto, é claro, Bonturo! Lá, com dinheiro, qualquer não vira um sim.

Depois que falou, soltou o pecador das alturas, que submergiu no líquido espesso. O diabo voltou correndo pelos recifes e sumiu na escuridão. O pecador ainda tentou ressurgir na superfície, mas vários demônios que estavam sob a ponte saíram e o perfuraram com mais de cem garfos, levando-o a outra vez submergir.
Os dez demônios que guiarão Dante e Virgílio pela vala dos corruptos - Ilustração de Paul Gustave Doré
- É melhor que te escondas. - sussurrou o mestre, preocupado com a presença de tantos demônios - Não é bom que saibam da tua presença. Fica aí atrás daquela pedra e não saias tu de lá até que eu te chame!

Fui e obedeci. Seu temor tinha sentido. Quando o mestre chegou ao outro lado da vala, eles surgiram. Saíram todos de baixo da ponte e quando viram o meu guia, apontaram arpões na direção dele.

- Nenhum de vós seja inimigo! - gritou Virgílio - e antes que me ataquem, que venha um de vós e me ouça!

- Vai Malacoda! - gritaram todos.

E então, um dos diabos se separou do grupo e se aproximou, rosnando:

- De que lhe adianta falar comigo?

- Crês tu Malacoda - falou o mestre -, que eu teria chegado até aqui se não fosse por vontade divina? Me deixa seguir pois no céu a vontade é que eu guie alguém por este caminho.

Com isto o orgulho dele caiu, assim como o seu arpão que parou a seus pés, e gritou para os outros:

- Não toquem nele!

O mestre então gritou, ordenando que eu saísse do meu esconderijo. Eu obedeci e corri na direção dele. Vendo todos aqueles diabos voando na minha direção, temi por um instante que o pacto não fosse cumprido.

- Vou tocá-lo! - gritou um - Aonde? - perguntou outro. Mas Malacoda voltou-se rapidamente para eles e os afastou, gritando:

- Fica quieto Scarmiglione! - e depois virou-se para nós, dizendo - Esta ponte sobre a sexta vala está em ruínas. Se vocês quiserem prosseguir, devem continuar por esta beira e mais adiante irão encontrar outra ponte. De ontem, cinco horas mais que agora, já são 1266 anos desde que esta via foi destruída. Para lá mandarei alguns dos meus guardas que irão fiscalizar os pecadores no fosso. Podem ir com eles. Eles se comportarão.

E então Malacoda designou 10 diabos para nos escoltar, chamando-os um a um pelo nome: Calcabrina, Alichino, Cagnazzo, Libicocco, Draghignazzo, Graffiacane, Ciriatto, Farfarello, Rubicante e Barbariccia, o chefe da expedição.

- Meu mestre, o que é que eu vejo? - falei, assustado - dispensa a escolta e vamos embora sozinhos, pois eu não quero seguir na companhia deles. Se prestas atenção, como é o teu costume, vê como eles mostram os dentes e piscam uns para os outros.

- Não há o que temer - respondeu o mestre - deixa que eles mostrem seus dentes à vontade. Eles o fazem para as almas que fervem e não para nós.

Antes de seguirmos pela beira à esquerda, os demônios saudaram Malacoda soprando, com a língua firme entre os dentes, fazendo um som obsceno. Esperavam um sinal para partir. O demônio então, os respondeu de volta com o ânus em som de trombeta.
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No Canto XXII, veremos a escolta  dos dez demônios
Vicente Almeida
10/04/2014

sábado, 5 de abril de 2014

A DIVINA COMÉDIA - INFERNO - CANTO XX - Por Vicente Almeida

Vala dos adivinhos

Da nossa posição sobre a quarta vala pude ver procissões caladas caminhando e ouvir o seu pranto. Mas quando olhei com mais atenção eu vi, com espanto, que todas as pessoas tinham a cabeça torcida. Só podiam andar para trás, pois olhar para frente não lhes era permitido. Vendo tal imagem torta e as lágrimas que vertiam descendo pelas nádegas, não pude conter-me e chorei também.
A ilustração de Giovanni Stradano fala por si
 - Ainda estás com esses tolos enganadores? - perguntou-me o guia, repreendendo-me - Aqui, neste lugar, a piedade vive quando a piedade é morta. Quem pode ser mais cruel que o homem que tenta controlar a vontade divina? 

Levanta o rosto e veja Anfiarau que tentou fugir da guerra, mas foi engolido pela terra até chegar a Minós, que no fim, a todos aferra.

Sabes por que ele e os outros têm a cabeça virada para trás? É porque em vida quiseram demais ver adiante. Foram todos adivinhos e astrólogos que agora só podem olhar para o passado. Olha lá Tirésias que foi homem e também mulher, vê Aronta e também Manto, que deu o nome à cidade de Mântua, onde nasci.

Depois de mostrar a vidente Manto, Virgílio me contou como ela percorreu o mundo por muitos anos até encontrar uma planície desabitada no norte da Itália e lá se estabelecer para praticar magia com seus servos. Lá ela morreu e lá deixou seus ossos, sobre os quais foi construída uma cidade, que ganhou o nome de Mântua.

- Mestre - respondi - tua explicação eu sinto tão certa, que outra seria como carvão extinto. Mas dize, dessa gente que passa, se há alguma outra digna de nota.

- Sim, aquele ali cuja barba se espalha do queixo sobre suas costas é Eurípiles - mostrou Virgílio - e aquele outro, magro, é Michael Scott, que sabia tudo sobre magia. Vê Guido Bonatti e vê Asdente, que hoje deseja ter sido mais dedicado na arte de fazer sapatos. Mas agora vamos, pois a lua cheia já se põe e o dia já amanhece.
E enquanto ele falava, nós andávamos.
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No Canto XXI veremos a vala dos corruptos - Malebranche (demônios)
Vicente Almeida
05/04/2014

domingo, 30 de março de 2014

A DIVINA COMÉDIA - INFERNO - CANTO XIX - Por Vicente Almeida

Vala dos simoníacos Espírito do papa Nicolau III.

Ó Simão mago, e todos aqueles que te seguiram, profanando e vendendo as coisas de Deus pelo preço de ouro e prata! Em vossa homenagem devo soar a trombeta, pois é aqui, nesta terceira vala, onde estais!

Já estávamos no meio da ponte sobre a terceira vala. De lá eu vi nas encostas e nos fundos da pedra gelada, redondos furos escavados de igual tamanho.

Da boca dos furos pendiam os pés de um penitente, cujo corpo estava enterrado nos buracos com a cabeça para baixo. Nas plantas dos pés ardiam chamas, que escorriam por seus calcanhares.

Os sofredores, desesperados, agitavam seus pés freneticamente, na vã esperança de livrarem-se das dores causadas pelas chamas.
Gravura de Blake Dante Hell
  - Mestre - perguntei -, quem é aquele que se debate mais que os outros, e que é torturado por uma chama mais vermelha?

- Se quiseres- respondeu - eu te levarei até ele, e lá poderás perguntar quem ele é e de onde veio.

Concordei e ele me ajudou na descida difícil, me segurando enquanto passávamos pelas beiras esburacadas. Só quando eu estava diante do pecador foi que ele me soltou.

- Ó tu, alma desgraçada que estás plantada, fala se puderes! - fui dizendo, enquanto me abaixava diante dele como um frade durante uma confissão.

- Já estás aí plantado? Já estás aí plantado, Bonifácio? Por muitos anos enganou-me o escrito! - falou a alma pensando que eu fosse outro. Fiquei imóvel sem saber como responder.

- Rápido, dize a ele que não és ele, que não és aquele que ele pensa que és - ordenou Virgílio, e eu respondi ao espírito da mesma forma como ele me pediu.
Dante conversa com o papa Nicolau III - Ilustração de Paul Gustave Doré - Século XIX
- Bem, então o que querem de mim? - perguntou, suspirando e torcendo os pés - Se querem saber quem eu sou, saibam que um dia fui papa, mas na verdade eu era filho da Ursa.

Por tanto procurar embolsar ouro naquele mundo, aqui eu mesmo fui embolsado. Neste buraco, abaixo da minha cabeça, estão empilhados todos aqueles que me precederam, pecando por tráfico de coisas divinas, espremidos nas fissuras da pedra. Eu aguardo a chegada daquele que eu pensava que tu eras, que ocupará o lugar que hoje ocupo, me empurrando mais para baixo neste buraco. Os pés dele arderão em chamas até que ele seja também substituído por um pastor sem lei, que virá do ocidente, e que pelo rei da França será protegido. Ele cobrirá a Bonifácio e a mim.

Conversando com Dante, o papa Nicolau III o confunde com o papa Bonifácio VIII, que é aguardado naquela parte do Inferno.

Não resisti em respondê-lo com suas próprias palavras:

- Bem, dize-me quanto foi que Pedro teve que pagar ao nosso Senhor antes que Ele lhe desse as chaves de sua Igreja? Estejas certo que ele pediu nada mais que "Me acompanha." Então fica tu aí pois essa tua punição é merecida. Tua avareza traz tristeza ao mundo, esmagando os justos, premiando os depravados. Criastes para vós, pastores pervertidos, um deus de ouro e prata! Pouca diferença há entre vós e os idólatras, exceto que eles só adoram a um, e vós adorais centenas!

E enquanto eu falava essas palavras, aqueles pés escoiceavam mais ainda, talvez por ira ou mordidas de consciência. O mestre então me levou de volta à ribanceira e seguimos para a quarta vala.
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No Canto XX você conhecerá a quarta vala que é a vala dos adivinhos.
Vicente Almeida
30/03/2014


terça-feira, 25 de março de 2014

A DIVINA COMÉDIA - INFERNO - CANTO XVIII - Por Vicente Almeida

Malebolge - Círculo da fraude (8º) - Valas dos sedutores, e aduladores

Existe um lugar no inferno chamado Malebolge, e é feito de pedra de cor ferrenha, como as paredes da encosta que o rodeia. No centro desse campo maligno há um poço muito largo e profundo, que descreverei quando lá chegarmos.

A faixa que resta, entre o poço e a encosta, é redonda e se divide em dez valas, concêntricas, cada uma mais baixa que a anterior. Aqui há pontes que, desde o penhasco, atravessam os fossos de uma beira à outra, até a ultima que beira o poço central.

Era nesse lugar que nós estávamos, quando do dorso de Gerión fomos despejados. De lá seguiu o poeta à esquerda e eu o acompanhei. À direita já pude ver as almas sofredoras e as novas penas, o novo tormento e os novos torturadores, de que a primeira vala era repleta.
Ilustração de Paul Gustave Doré
Duas fileiras de almas nuas andavam em fila no fundo. As do nosso lado seguiam com seus rostos virados para nós. As outras, seguiam no sentido oposto. Nos dois grupos, diabos chifrudos surravam as almas com prazer, usando duros chicotes para que não parassem. Elas gritavam de dor, tropeçavam, mas não ousavam reduzir o seu passo.

Enquanto eu andava, reconheci um dos açoitados que sofria. Eu olhei e ele baixou o rosto, tentando se esconder até que eu o segui e perguntei:

- Se eu não estou enganado, tu és Caccianemico Venedico. O que foi que te trouxe para este molho ardido?

- Eu não queria responder - disse o espírito -, mas tua voz me faz recordar o mundo antigo. Eu fui aquele que, por dinheiro, entreguei minha própria irmã Ghisolabella ao marquês d'Este. - depois observou - Mas eu não sou o único bolonhês neste fosso! Esta vala está repleta de rufiões!

Naquele instante, um diabo chegou e lhe surrou com o chicote, dizendo:

- Anda rufião, que aqui não tem fêmeas para explorar! Eu voltei a seguir meu mestre até uma ponte de pedra sob a qual havia um vão por onde passavam os açoitados. Lá o mestre me mostrou outros condenados que caminhavam pelo vale em sentido contrário aos rufiões (que antes não víamos o rosto). Eram os sedutores. Eles, assim como os rufiões, eram movidos por chicotadas. Sem que eu pedisse, o mestre me mostrou várias personalidades:

- Olha aquele que vem, imponente, que não solta uma lágrima sequer de dor. É Jasão, condenado por ter seduzido a jovem Ísfile de Lemnos e depois tê-la abandonado. Ele a seduziu e depois a deixou, sozinha, com criança para criar. Tal pecado é punido com esta pena, e assim, também, Medéia tem aqui a sua vingança.
Vala dos sedutores e rufiões - Ilustração de Sandro Botticelli século XV
Tendo atravessado a ponte que unia a primeira beira à segunda, seguimos até a ponte seguinte. Antes de subir, já ouvíamos as respirações ofegantes das almas que sofriam na segunda vala, respirando um vapor nojoso que emanava de um rio de podres fezes ácidas. Tão funda era esta vala que só foi possível ver seu fundo quando chegamos à parte mais elevada e central da ponte. Lá vimos gente imersa no esgoto asqueroso.     
Ilustração de Paul Gustave Doré
Não era fácil reconhecer os condenados, todos cobertos de merda. Fiquei a olhar lá para o fundo, vendo se reconhecia alguém, quando uma das almas gritou:

- Por que olhas mais para mim que para as outras almas sujas desta vala?

- Porque - respondi -, se a memória não me engana, já te vi antes com teus cabelos enxutos. Tu és Alessio Interminei de Luca. É por isto que te olho mais que os outros.

- Estou aqui por que fui um adulador - disse ele -, e enganei pessoas com minha língua perversa.

Depois que Alessio terminou de falar, meu guia me chamou a atenção:    
Dante e Virgílio descendo o barranco - Ilustração de Paul Gustave Doré
- Vês aquela rameira suja que se coça de modo asqueroso? Ela é a prostituta Akaísia. Mas agora vamos, pois já vimos o suficiente.
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No Canto XIX veremos a Vala dos simoníacos Espírito do papa Nicolau III
Vicente Almeida
25/03/2014

quinta-feira, 20 de março de 2014

A DIVINA COMÉDIA - INFERNO - CANTO XVII - Por Vicente Almeida

Gerión - Espíritos de famílias da alta nobreza.

- Eis a fera com sua cauda aguda, que atravessa os montes e rompe os muros e armas! Eis aquela que em todo o mundo transpira e fede! - começou a me falar o mestre, enquanto acenava para a fera sinalizando que ela viesse à beira da pedra onde estávamos.

E ela subiu com a cabeça e o busto, mas sobre a beira não descansou sua cauda. A sua face era a face de um homem justo, tão benignos mostravam-se seus traços, e de serpente era o resto de seu corpo. As suas garras e o seu tronco eram peludas. Tinha o dorso e peito ornados com pinturas de argolas e laços. Toda a sua cauda no vazio vibrava, torcendo sua forquilha venenosa, armada na ponta como um escorpião.

- Vamos! - chamou o mestre - Vamos até a fera que acolá se assenta!

Descemos pelo lado direito do dique e demos dez passos pela sua beira inferior, evitando as areias quentes.

Quando estávamos ao lado de Gerión, eu percebi, um pouco mais distante, algumas pessoas acocoradas na areia junto à beira do precipício.

- Para que possas ter um conhecimento completo dos tormentos deste círculo, vai tu falar com aquele grupo enquanto eu convenço esta fera a nos transportar. - sugeriu Virgílio.

E eu fui, sozinho, margeando a aresta do precipício, até onde estavam sentadas aquelas almas tristes.

Dos seus olhos escapava-lhes a dor. Com as mãos, defendiam-se como podiam do solo em brasa e do ardente calor. Examinei aqueles rostos, mas nenhum reconheci. Notei que todas tinham uma bolsa pendurada no pescoço, cada uma de uma cor, com um brasão nelas gravado. Uma tinha algo azul com rosto de leão impresso numa bolsa amarela. Outra ostentava uma bolsa vermelha com uma pata branca desenhada. Aquela alma que tinha uma porca azul pintada sobre uma bolsa branca me perguntou:

- O que fazes nesta fossa? Vai embora! E como estás vivo, saibas que o meu vizinho Vitaliano sentará aqui à minha esquerda. Que venha o cavaleiro soberano, que três bodes terá na sua bolsa!

Falou e depois fez caretas terríveis, puxando a língua por cima do nariz. Eu, assustado, voltei para o lugar onde o mestre já me aguardava. Quando cheguei, Virgílio já estava montado sobre a garupa da fera.

- Ora, tenha coragem! - disse, tranqüilo - Monta aqui na minha frente, pois atrás ficarei eu para evitar que sua cauda possa fazer-lhe mal.

Subi então naquele bicho horrendo, tomado de medo e horror. O mestre me segurou firme e então gritou:

- Gerión, move-te afora e desce devagar. Pensa na carga que carregas!

E assim, o monstro deu ré e virou-se na direção do abismo. Onde estava o peito agora estava sua cauda, que esticou como uma enguia, e com suas garras puxou o ar escuro, mergulhando na escuridão. Eu estava aterrorizado. Nunca sentira medo igual. Olhei para baixo e nada vi. Só havia escuridão. Gerión se movia lento, nadando, descendo em espiral. E esse movimento eu só pude perceber por causa da brisa que soprava no meu rosto.
Dante e Virgílio na garupa de Gerion descendo para o oitova círculo. Ilustração de  Giovanni Stradano - Século XVI
Pouco depois comecei a ouvir os lamentos que já dominavam o ar. Debrucei-me para olhar para baixo e vi o fogo. Assustado, logo me aprumei e segurei firme. Depois de cem voltas Gerión finalmente pousou, nos deixando no fundo, ao pé do grande penhasco. Assim que descemos de sua garupa ele sumiu, esvaindo-se na escuridão.
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No Canto XVIII veremos o 8º Círculo - Malebolge, Círculo da fraude, Valas dos sedutores e aduladores.
Vicente Almeida
20/03/2014

sábado, 15 de março de 2014

A DIVINA COMÉDIA - FLORENÇA - ITÁLIA - Por Vicente Almeida

Para compreender melhor a Divina Comédia vamos falar um pouco sobre Florença, de onde Dante retira um manancial de informações sobre a vida da cidade e de seus habitantes.

Berço do Renascimento italiano, Florença é uma das cidades mais belas do mundo. Muitos gênios, como Leonardo da Vinci, Michelangelo, Dante Alighieri, Filippo Brunelleschi e Nicolau Maquiavel, contribuíram para sua grandeza.

Florença (Firenze, em italiano) é a capital da província homônima e da região italiana da Toscana. Está situada a 230 km ao noroeste de Roma e ocupa uma área em torno de 105 km2. Foi fundada por motivos comerciais e militares e o objetivo era controlar os únicos pontos navegáveis do rio Arno e os montes Apeninos, nas rotas de norte a sul da península itálica. Fiel a sua tradição, Florença conserva lugar de destaque na arte e na cultura italianas.

A cidade data do século I a.C. e foi edificada junto às ruínas de uma cidade etrusca. Serviu inicialmente de alojamento para uma guarnição militar romana e, quatro séculos depois, transformou-se num importante centro comercial, dada sua localização no ponto nevrálgico das comunicações terrestres da península itálica.

Após um longo período de letargia, em que esteve sucessivamente sob domínio de ostrogodos, bizantinos e lombardos, a cidade renasceu no século IX, quando se integrou ao império de Carlos Magno. Com as tensões entre o papado e o Sacro Império Romano-Germânico, ao qual passou a pertencer desde 962, junto com a Toscana, Florença teve governo autônomo desde fins do século XI.

Durante os séculos XIII e XIV, a cidade foi agitada por lutas contínuas entre os guelfos, partidários do poder papal, e os gibelinos, vinculados ao império alemão. Mesmo assim, essa foi uma época de esplendor econômico e cultural, com escritores que se tornaram imortais, como Dante, Petrarca e Boccaccio, e pintores como Giotto.

No princípio do século XV, uma família de banqueiros, os Medici, tomou o poder, que conservaria até 1737, data em que Florença foi anexada pelo duque de Lorena. Os Medici criaram um poderoso estado toscano e, com seu mecenato, imprimiram grande impulso à cultura renascentista em Florença.

No século XVIII teve início uma fase de decadência artística e social, motivada pelas guerras e pela instabilidade política. Grande parte da herança cultural da cidade perdeu-se pelo desleixo ou pelo uso indevido de seus edifícios, situação que se agravou com alguns acidentes naturais, como inundações provocadas pelas cheias do rio Arno. No século XX, porém, muitas medidas foram tomadas para proteger o acervo cultural e artístico de Florença.

Embora nas últimas décadas do século XX a cidade tenha experimentado acentuado progresso industrial, suas principais fontes de renda são o turismo e o artesanato. A atividade artesanal florentina produz objetos de vidro e cerâmica, reproduções de obras de arte e trabalhos em metais preciosos, cujos pontos de venda se estendem pela cidade inteira. Predominam os mercados ao ar livre, como o de ourivesaria do Pontevecchio.

Florença tem muitos museus, dos quais o mais importante é a Galleria Degli Uffizi. A cidade conta também com a Biblioteca Nacional Central, onde é possível encontrar exemplares de todos os livros publicados na Itália desde 1870. A vida universitária é muito intensa. Além dos estabelecimentos de ensino italianos, funcionam universidades de outros países, como as de Grenoble e Harvard, dedicadas ao estudo do Renascimento italiano.

O centro da cidade pouco mudou desde sua época de máximo esplendor, ou seja, o período situado entre os séculos XIII e XV. Conserva-se o traçado das antigas ruas romanas, que cruzavam o núcleo urbano. Desde o século XIII, o centro político é a praça da Signoria, antiga sede dos governos de Florença. A praça da Repubblica e arredores, com muitos cafés, livrarias e lojas de antiguidades, formam o centro comercial.

A arquitetura religiosa florentina é um dos principais centros de interesse da cidade. O edifício mais antigo é o batistério de San Giovanni, em estilo romano, com planta octogonal, decorado exteriormente em mármore verde.

A catedral de Santa Maria del Fiore, no estilo gótico com influências toscanas, obra de Arnolfo di Cambio, foi iniciada em 1296 e finalizada em 1436, quando se ergueu a cúpula projetada por Filippo Brunelleschi. Outros monumentos religiosos de particular interesse são a basílica de San Lorenzo, a igreja do Santo Spirito, a de Santa Croce etc.

A cidade conta mais de meia centena de palácios, dos quais o maior e historicamente mais importante é o palácio Pitti, que foi residência dos Medici e depois dos Lorena. Esse palácio foi projetado por Brunelleschi, a quem se deve igualmente a fachada do Hospital dos Inocentes, tida como a primeira obra arquitetônica do Renascimento.

Outros palácios famosos são o da Signoria, o Medici-Riccardi e o Strozzi. Entre os belíssimos jardins de Florença destaca-se o de Boboli, pela extensão e antiguidade.

Créditos deste texto para Helder da Rocha.
Vicente Almeida
15/03/2014 

A DIVINA COMÉDIA - INFERNO - CANTO XVI - Por Vicenre Almeida

Espíritos de políticos florentinos

Chegávamos onde já se ouvia o ruído da água que caía no outro círculo, com um som semelhante ao zumbido que se ouve ao aproximar-se de uma colmeia, quando chegaram até nós três sombras, correndo, se separando de seu grupo que nos passava.
Guido guerra, Tegghiaio Aldobrandi e Jacopo Rusticucci diante de Dante e Virgílio - Ilustração de Giovanni Stradano - Século XVI
- Pára, tu, de vestes conhecidas! - gritavam - Pára pois pareces ser de nossa terra perversa (Florença).

Ó tristes almas sofredoras! Quantas vi com seus membros repletos de feridas novas e antigas, queimaduras que ainda me doem só de pensar. Os seus gritos chamaram a atenção do mestre, que voltou-se para mim e disse:

- Espera! Com estas almas te rogo cortesia.

Paramos. Os três espíritos, que não podiam parar, logo formaram uma roda e começaram a andar em um círculo. Enquanto circulavam, cada um mantinha o rosto virado na minha direção, de forma que enquanto o pescoço virava para um lado, os pés seguiam para o outro.

- Se a miséria deste solo estéril - falou um deles - e nossas queimaduras, bolhas e peles descascadas te causam repugnância, deixa que a nossa fama te anime a dizer quem és tu, que vivo caminhas por este inferno. Este na minha frente, embora corra nu com o corpo esfolado, foi figura de alto grau no mundo. Seu nome era Guido Guerra e muito ele cumpriu com seus conselhos e com a espada. Este outro, que está atrás de mim, é Tegghiaio Aldobrandi, cuja voz o mundo faria bem em ouvir. E eu, sou Jacopo Rusticucci.

Eu fiquei tão comovido com o sofrimento daqueles espíritos que, se não fosse a chuva de brasas e o fogo, eu teria ido ao encontro deles, com a aprovação do mestre. Tive vontade de descer do dique e abraçá-los mas não o fiz por receio de me queimar. Depois falei:
Políticos Florentinos sob a chuva de brasa - Autor da ilustração desconhecido
- Não repugnância, mas tristeza sinto por vossa condição. É verdade que eu sou da vossa terra. Lá, eu sempre ouvi falar muito bem de vossas obras e de vosso caráter.

- Que longamente possa tua alma continuar a guiar teus membros - disse o mesmo que antes havia falado - e ainda depois, possa tua fama continuar a brilhar, mas dize, cortesia e valor ainda vigoram em nossa terra? Pois Guglielmo Borsiere, que recentemente juntou-se a nós, trouxe notícias que nos causaram imensa tristeza.

- Os novos povos e seu rápido enriquecimento têm estimulado o orgulho e descontrole em ti, Ó Florença! - gritei, e eles se olharam, tomando isso como resposta.

- Se sempre respondes de forma tão clara - falaram todos - feliz de ti quando precisares discursar. Logo, se conseguires sair destas trevas e um dia voltar a rever as estrelas, não deixes de falar de nós aos que ainda vivem!

Depois desfez-se a roda e sumiram os três. Virgílio, então, decidiu que já era hora de partirmos também. Caminhamos e eu o segui até que chegamos a um ponto onde o ruído das águas tornou-se tão intenso que mal podíamos ouvir nossas próprias vozes.

Eu mantinha uma corda enrolada na cintura, que, em uma outra ocasião, pensei em usar para vencer o leopardo na floresta. O mestre a pediu, e eu a desenrolei entregando-a nas suas mãos. Ele a pegou e caminhou até a borda do precipício, de onde a jogou no abismo profundo.

Diante de tal cena eu pensei: "Algo deverá acontecer, pois algum evento o mestre busca com o olhar". Lendo os meus pensamentos, Virgílio me respondeu: 

- O que tua mente espera logo surgirá à tua visão. 

Mal ele havia terminado de falar, eu vi surgir da escuridão, nadando naquele ar denso e escuro, uma grande e estupenda figura que assombraria até os corações mais seguros. Ela já reduzia a sua velocidade e preparava-se para pousar na beira do precipício, estirando suas garras e recolhendo seus pés.

No Canto XVII, veremos Gerión - Espíritos de famílias da alta nobreza
Vicente Almeida
15/03/2014