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O LABORATÓRIO SIDERAL leva até você, somente POSTAGENS de cunho cultural e educativo, que trata do universo; das gentes; das lendas; das religiões e seus mitos, e de forma especial, dos grandes mistérios que envolvem nosso passado. Contém também muitos textos para sua meditação. Tarefa difícil, mas atraente. Neste Blog não há bloqueio para comentários sobre qualquer postagem.

A FOTO ACIMA É A VISÃO QUE TEMOS DA CHAPADA DO ARARIPE, A PARTIR DA NOSSA "VILA ENCANTADA".

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

A DIVINA COMEDIA - INFERNO - CANTO XIII - Por Vicente Almeida

Canto XIII

Hárpias - Selva dos suicidas

Antes que Nesso tivesse terminado de atravessar o vau do rio de sangue, já estávamos nós em um bosque, não verde, mas de folhagens foscas, sem frutos, sem ramos e com os troncos cobertos de espinhos. Era ali que faziam seus ninhos as vis Hárpias - seres de grandes asas e rostos humanos, garras nos pés e ventres emplumados que lançam das alturas lamentos misteriosos.
Floresta dos suicidas e das harpias - Ilustração de Gustave Doré
- Antes que entres - disse-me o mestre -, saibas que estamos no giro segundo deste sétimo círculo. Fica atento pois aqui verás coisas incríveis que falsas soariam se eu te contasse.

Caminhávamos pelo bosque deserto e eu ouvia vozes de lamento, sem avistar ninguém que pudesse ser a fonte de tais lamúrias. Creio que Virgílio tenha pensado que eu estava achando que as vozes emanavam de pessoas escondidas atrás das árvores, por isso falou:

- Se arrancares um galhinho de uma dessas plantas, mudarás o que agora imaginas.
Eu, seguindo seu conselho, levei a mão à primeira que encontrei, e dela arranquei um pequeno ramo.

- Ai! Por que me quebrantas? - gritou o tronco, chorando. E depois de se cobrir todo de sangue, disse ainda, triste - Por que me atormentas? Não tens espírito de piedade? Homens um dia fomos e hoje só restam paus. Devias ter mais cortesia mesmo que fôssemos almas de serpentes.

Saía da ferida, uma mistura de sangue e palavras, cuspindo e assobiando. Assustado, soltei o galho que eu segurava e permaneci parado, como quem teme.
Floresta dos suicidas - Dante ao quebrar o galho de uma árvore-alma, ela chora de dor - Ilustração de Paul Gustave Doré

- Ó alma ferida - falou Virgílio, dirigindo-se à planta - fui eu que o incitei a fazer o que agora me entristece. Se ele soubesse que sofrerias, ele jamais teria erguido a mão contra ti. Mas dize a ele quem foste, pois ele voltará ao mundo onde poderá resgatar a tua fama.

- Tão amiga soa tua fala que devo responder. Fui ministro de Frederico II e vítima de grande injustiça, calúnias e inverdades. Por causa delas, tirei minha própria vida. Sempre fui atento ao meu senhor e nunca o traí. Se algum de vós regressar ao mundo, por favor restaure a minha memória que foi maculada pela inveja.

Virgílio esperou um pouco, depois me falou:

- Já calou-se o suficiente. Não percas tua vez. Pergunta, se há mais alguma coisa que desejas saber.

- Por que tu não perguntas o que achares que a mim poderá satisfazer? - perguntei - Eu não posso. Não conseguiria falar.

Ele então, voltou para o espírito:

- Ó espírito em desgraça, dize-nos como uma alma se funde com estas plantas e se algum de vós, um dia, escapará desses galhos.

Ao ouvir, a árvore respirou fundo e depois seu sopro se transformou em uma voz que respondeu:

- Quando alguma alma se separa do seu corpo por sua própria vontade, Minós a manda para a sétima foz. De lá, cai nesta selva escura, brota como uma semente e cresce, até tornar-se um espinhoso arbusto.

As Hárpias nutrem-se de nossos galhos e assim nos trazem eterna e intensa dor. Como os outros, um dia retornaremos para reaver nossos corpos, mas nunca mais poderemos vesti-los, pois, injusto seria que tivéssemos algo que rejeitamos. Nós os arrastaremos até aqui onde, nesta triste floresta, nossos corpos serão para sempre pendurados nos galhos de suas almas vis.

Enquanto ouvíamos a árvore falar, um novo ruído desviou a nossa atenção. Eram dois vultos nus, que corriam, sangrando. Arrancavam, na fuga, todos os galhos dos arbustos por onde passavam.

- Me acode, me acode, Morte! - gritava o primeiro.

- Lano, com tuas pernas poderias ter tido mais sorte na batalha de Toppo! - dizia o outro que, não podendo mais correr, caiu sobre um arbusto e se ficou coberto de espinhos.

Atrás dos dois a selva estava repleta de cadelas pretas, ágeis e famintas. Elas chegaram e afundaram suas presas no pobre coitado que se escondia e o dilaceraram, arrancando seus pedaços e fugindo com partes de seus membros arrancados.
Ao fundo vemos as cadelas devorando os suicidas - Ilustração Paulo Gustave Doré
Depois que as cadelas se foram, Virgílio me levou até um arbusto que chorava, em vão, através das suas muitas fraturas que sangravam.

- Ó Giácomo de Santo Andrea - chorava -, que culpa tenho de tua vida perversa?

- Quem foste tu que agora, através das feridas, sopras com sangue este sermão amargo? - perguntou o mestre.

- Ó almas que chegaram a tempo de ver esta injusta mutilação que separou-me dos meus galhos, por favor, junte-os em volta do meu tronco. Eu fui da cidade cujo patrono era o Batista e lá fiz de minha casa, a minha forca.
Vicente Almeida
05/02/2014

2 comentários:

  1. É...

    Os violentos contra si próprios são aqueles que tiraram a sua própria vida como os suicidas e os pródigos gastadores, que gastaram tudo por vontade de gastar e terminaram na miséria como por exemplo; os viciados em jogo.

    O que diferencia estes gastadores daqueles gastadores incontinentes do quarto círculo (Canto VII) é que estes sabiam que iriam terminar pobres e miseráveis e mesmo assim, decidiram continuar gastando até alcançar seu objetivo, que se caracteriza como uma violência contra si próprios. Os primeiros, embora não tenham se controlado, não chegaram a se auto-destruir.

    As Hárpias são seres da mitologia grega caracterizados por possuírem corpo, asas e garras de ave de rapina com cabeça de mulher. Elas podiam voar à velocidade do vento. Freqüentemente raptavam humanos e os levavam ao inferno.

    O primeiro suicida mencionado na postagem: - Pier Della Vigna era um ministro que ocupava um cargo de alta confiança na corte do imperador Frederico II. Foi acusado de traição ao aliar-se ao papa (Inocêncio IV) e tramar a morte de Frederico, sendo por essas acusações, condenado à morte. Antes, porém, cometeu suicídio. Ele alega que foi vítima de uma armação e que sua acusação era injusta.

    As Cadelas famintas: Entre os interpretadores da Divina Comédia, alguns vêem esses cães como a pobreza e o desespero, ainda perseguindo suas vítimas depois da morte.

    Giacomo de Santo Andrea era um paduano e tinha uma vida de gastança sem limites. Segundo Ottimo Comento, desejando ele, observar um grandioso e belo incendio, mandou atear fogo em uma de suas fazendas" (ao contrário de Nero, que ateou fogo em Roma para poder se inspirar e compor). Giácomo é o pecador que é perseguido e dilacerado pelas cadelas, arrancando, na fuga, vários galhos do suicida que lamenta e chora de dor.

    ESCLARECIMENTO NECESSÁRIO:

    Precisamos esclarecer que as postagens da "Divina Comédia" referem-se a um poema escrito há setecentos anos, pela mente fértil do florentino Dante Alighieri, segundo a religiosidade do povo que, naquele tempo, acreditava na danação eterna.

    Dante criou este cenário, alegórico ou profético, não sei, segundo suas convicções, imaginação e criatividade.

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  2. É...

    Aquele que planeja seu suicídio, não imagina o sofrimento que é tirar a própria vida, por que na verdade, a vida não se extingue com a morte do corpo nem o sofrimento é aliviado. Ao se suicidar o suicida amplia o sofrimento da alma milhares de vezes superiores aquele pelo qual estava passando em vida.

    Este Canto é mais uma advertência que ajuda a meditar antes de cometer tal desatino.

    A vida continuará de eternidade em eternidade. O sofrimento da alma não será eterno como escreveu o Dante neste Canto XIII, cessará um dia quando tiver completado o resgate do crime que praticou em vida e poderá então gozar das benesses inerentes as almas purificadas.

    Contudo, não se iluda, todo crime tem consequências gravíssimas. É isto que o poema A Divina Comédia pretende mostrar. Quem quiser entender, entenderá.

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