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O LABORATÓRIO SIDERAL leva até você, somente POSTAGENS de cunho cultural e educativo, que trata do universo; das gentes; das lendas; das religiões e seus mitos, e de forma especial, dos grandes mistérios que envolvem nosso passado. Contém também muitos textos para sua meditação. Tarefa difícil, mas atraente. Neste Blog não há bloqueio para comentários sobre qualquer postagem.

A FOTO ACIMA É A VISÃO QUE TEMOS DA CHAPADA DO ARARIPE, A PARTIR DA NOSSA "VILA ENCANTADA".

segunda-feira, 10 de março de 2014

A DIVINA COMEDIA - INFERNO - CANTO XV - Por Vicente Almeida

Espírito de Brunetto Latini

Nós caminhávamos por uma das margens de pedra. Uma névoa pairava sobre o córrego mantendo o fogo longe dos diques que o separam do areão. A selva já ficara bem para trás - Tão distante que, se eu olhasse para trás, tenho certeza que não mais a veria, foi quando surgiu um grupo de almas beirando o dique e nos fitando. Uma delas me reconheceu e se agarrou ao meu manto, gritando: 
- Que maravilha! 

Eu, logo que senti que um espírito me segurava, olhei para as suas feições queimadas e, apesar de sua face tostada, não pude deixar de reconhecê-lo.

- Sois vós aqui, senhor Brunetto? - perguntei.

- Filho - respondeu ele -, se não te causar desgosto, deixa que Brunetto Latino se afaste de seu grupo e te faça companhia na breve caminhada. 
Brunetto Latini encontra Dante e Virgílio - Ilustração de Gustave Doré
- Se quiserdes, posso sentar aqui convosco - respondi -, se aquele que está comigo não se incomodar.

- Não posso parar. - respondeu - Fui condenado a vagar eternamente. Se um de nós se detiver, terá que permanecer por cem anos, sem poder afastar o fogo que o atormenta. Segue, portanto, e eu te acompanharei, e depois voltarei ao meu bando, que lamenta a sua dor eterna.

Andei ao seu lado, mas não desci do dique. Ele me perguntou o que eu fazia lá naquele vale infernal antes do tempo. Contei-lhe toda a história, desde a floresta escura até a jornada que eu empreendia com Virgílio.

Então ele me fez várias previsões sobre o meu futuro e o de Florença. Disse:

- Por tuas boas ações, a raça maligna te será inimiga. E têm razão, pois entre as frutas podres não convém cultivar o figo. Pelas honras que teu destino te reserva, vão disputar-te ambas as facções, mas que do bode fique longe a erva.

- Minha mente não esquece - respondi - e meu coração se parte, ao lembrar de vossa figura, amável e paterna, que enquanto vivia no mundo, hora após hora, me ensináveis como um homem se faz eterno. - e disse-lhe ainda - Não é nova esta vossa profecia aos meus ouvidos. Eu anotarei e a levarei comigo, junto com outro texto, para que uma mulher (Beatriz) o interprete, se eu a encontrar.

Indaguei sobre o estado dos seus companheiros e se havia alguém conhecido entre eles. Ele me respondeu:

- Eu terei que ser breve, pois meu tempo é curto. Em suma, cada um deles foi prelado, letrado ou de grande fama e por um só pecado teve o desprezo do mundo. Se o meu grupo aqui estivesse, poderia te mostrar, por exemplo, Prisciano e Francesco d'Accorso. Eu conversaria mais, porém, já vejo uma poeira no Areal. Outro grupo se aproxima e com eles eu não posso me misturar. Lembre-se do meu Tesouro, no qual eu ainda vivo. É a única coisa que te peço.

Falou, e saiu correndo pelo deserto como atleta que disputa uma corrida.

No Canto XVI veremos os Espíritos de políticos florentinos.
Vicente Almeida
10/03/2014

Um comentário:

  1. É...

    Sobre esta postagem temos apenas uma curiosidade que vamos expressar:

    Brunetto Latini era filósofo e mestre de retórica. Era um homem culto, muito querido por todos e amigo íntimo de Dante.

    Em nossa pesquisa ao histórico virtual deste personagem, não descobrimos por que Dante o colocou neste círculo com a condenação de vagar eternamente sob a chuva de brasas.

    Contudo, segundo o comentador Villani, Brunetto era um homem dado a gozos e prazeres materiais.

    Mesmo assim não entendo como isto poderia levá-lo a uma penalidade tão cruciante.

    Parece até que Dante PRETENDIA homenagear o amigo Brunetto Latini em seu poema, dedicando-lhe o Canto inteiro e situando-o neste círculo, tendo em vista que a sua obra "Divina Comédia" foi influenciada pelo trabalho dele.

    Dante situava as almas no lugar onde ele entendia que deviam estar, em virtude do seu conhecimento sobre os personagens em vida.

    Já os personagens mitológicos, ele extraia das lendas e da literatura de outros autores.

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