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O LABORATÓRIO SIDERAL leva até você, somente POSTAGENS de cunho cultural e educativo, que trata do universo; das gentes; das lendas; das religiões e seus mitos, e de forma especial, dos grandes mistérios que envolvem nosso passado. Contém também muitos textos para sua meditação. Tarefa difícil, mas atraente. Neste Blog não há bloqueio para comentários sobre qualquer postagem.

A FOTO ACIMA É A VISÃO QUE TEMOS DA CHAPADA DO ARARIPE, A PARTIR DA NOSSA "VILA ENCANTADA".

sábado, 5 de julho de 2014

A DIVINA COMÉDIA - INFERNO - CANTO XXXII - Por Vicente Almeida

Lago Cócito - Caína - Antenora - Espírito de Bocca

Mapa do Nono Círculo (Cócito) Ilustração de Helder da Rocha
Chegamos ao fundo do Universo depois de descer um pouco mais, abaixo do ponto onde o gigante havia nos deixado. Eu ainda olhava admirado para o altíssimo muro, quando ouvi meu mestre falar:

- Olha para baixo e toma cuidado para não pisar nas cabeças dos pobres sofredores.

E então eu olhei em volta e vi sob os meus pés um lago gelado. O chão era tão duro e liso que parecia vidro. As almas estavam submersas no gelo com apenas o tronco e a cabeça de fora. Todos mantinham seus rostos voltados para baixo e batiam os queixos de frio.

Depois de muito olhar para aquela multidão, vi aos meus pés, duas almas tão juntas que até seus cabelos tinham se entrelaçado.

- Dizei-me vós que assim juntam os peitos - pedi - Dizei-me quem sois?

Quando me ouviram os dois olharam para mim e começaram a chorar. Suas lágrimas logo congelaram, unindo mais firmemente um ao outro. Irritaram-se por causa disso e, tomados pela raiva, se agitaram e ficaram violentamente a bater cabeças.

Antes que eu voltasse a interrogá-los, um outro espírito que perdera as duas orelhas congeladas pelo frio falou:

- Por que tanto nos olhas? Esses aí são dois irmãos, filhos de Alberto, donos do vale onde flui o rio Bisenzo. Se procurares em toda a Caína não encontrarás almas mais merecedoras deste tormento que esses dois, nem aquele que teve seu peito e sombra perfurados por um só golpe da lança de Artur, nem Focaccia e nem este, cuja cabeça me encobre a visão. Ele é Sassol Mascheroni e se és toscano, deves saber quem ele foi. Eu fui Camicione dei Pazzi e espero aqui pela chegada de Carlino, meu parente, cuja pena fará a minha parecer bem menos grave.
Almas traidoras submersas no Lago Cócito - Ilustração de Paul Gustave Doré
Adiante vi mil faces, roxas de frio, que ainda hoje me fazem tremer ao lembrar. Continuamos, seguindo adiante na direção do centro. No caminho, não sei se por destino ou fortuna, ao passar distraído pelas cabeças, acabei atingindo uma delas fortemente no rosto com o meu pé.

- Por que me atropelas? - gritou a alma em pranto. - Se não vens para acrescer à vingança de Montaperti, porque me molestas?

Voltei-me ao mestre e solicitei que parássemos pois eu suspeitava que conhecia aquela alma desgraçada, que ainda gritava e nos insultava. Virgílio parou e eu fui até ela.

- Quem és tu que assim insultas os outros? - perguntei.

- E tu? Quem és tu que vais pela Antenora chutando os outros na cara como se fosses vivo? - perguntou-me a alma.

- Vivo eu sou! - respondi -, e poderei servi-lo na busca de tua fama, se eu puder acrescentar teu nome às minhas notas.

- Essa é a última coisa que eu desejaria! - respondeu - Vai-te embora daqui, vai! Não é assim que se consegue as coisas nesta lama.
Dante Suspendendo o traidor Bocca pela orelha - Ilustração de Paul Gustave Doré
Com isto eu agarrei o desgraçado pelos cabelos e disse:

- É bom que digas logo o teu nome, ou não te sobrará um fio de cabelo sequer!

- Não! - o espírito respondeu - Eu não digo de jeito nenhum! Tu podes arrancar todos os meus cabelos, podes me pelar mil vezes se quiseres mas nunca, nunca ouvirás de mim o meu nome.

Eu já tinha arrancado um feixe dos seus cabelos quando um outro gritou:

- O que é que tu tens Bocca? Já não basta agüentar o ruído do teu queixo que bate sem parar? Por que não te calas?

- Ora, ora - disse eu - não é preciso mais que fales, maldito traidor. Bem que eu desconfiei. Não te preocupes que eu levarei ao mundo a verdade sobre ti.

- Vai embora - respondeu - e conta o que quiseres! Mas se saíres daqui, não deixes de falar também desse traidor aí que me delatou. Ele é Buoso de Duera que aqui paga pela prata dos franceses. Se te perguntarem quem mais havia neste poço, este que vês aí do teu lado é o Beccheria. E, se procurares um pouco, aqui também encontrarás Gianni de' Soldanieri junto com Ganellone e Tebaldello.

Pouco depois que deixamos Bocca vi dois espíritos congelados juntos num mesmo fosso. Um deles mordia a nuca do outro ferozmente como se estivesse faminto.
- Ó tu que mostras com cada mordida o ódio que sentes por essa cabeça que devoras, dize-me - pedi -, dize-me a razão pela qual ages assim. Se a tua razão for justa, sabendo quem sois vós e o pecado desse outro, prometo que no mundo acima retribuirei tua confiança, ou que minha língua fique seca para sempre.
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No Canto XXXIII Espírito do Conde Ugolino - Ptoloméia
Espírito do Frei Alberigo.
Vicente Almeida
05/07/2014

Um comentário:

  1. É...

    Caína é a primeira das quatro divisões do nono círculo onde são punidos os traidores de parentes. Na Caína, as almas permanecem submersas com apenas o tórax e a cabeça fora do gelo. Seu nome tem origem no personagem bíblico Caim que matou seu irmão Abel por causa de inveja (Gênese 4:8).

    Antenora é o segundo giro do nono círculo onde são punidos os traidores de sua pátria ou partido político. As almas ficam submersas no nível do pescoço, com apenas suas cabeças fora do gelo. O nome foi tirado de Antenor, o príncipe troiano que traiu o seu país ao manter uma correspondência secreta com os gregos.

    Os filhos do conde Alberto degli Alberti são os irmãos Napoleone e Alessandro. Após a morte do pai, se desentenderam por causa da herança e acabaram matando um ao outro.

    Como o leitor pode verificar, todo ato criminoso contra a criatura humana, na visão profética de Dante tem suas consequências após a morte do corpo. Só que essa consequência ou contrapasso descrita por Dante, não é uma visão profética é uma realidade: A alma sofre ou se beneficia pós morte do corpo, pelos atos praticados em vida.

    Não será um sofrimento eterno, mas poderá durar: dias, semanas, meses, anos, séculos ou milhares de anos. O leitor pense nisso antes de praticar atos desabonadores visando obter vantagens materiais e fortuitas. "A CADA UM SERÁ DADO SEGUNDO SUAS OBRAS". Ninguém, absolutamente ninguém conseguirá fugir a esta regra.

    Vicente Almeida

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