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O LABORATÓRIO SIDERAL leva até você, somente POSTAGENS de cunho cultural e educativo, que trata do universo; das gentes; das lendas; das religiões e seus mitos, e de forma especial, dos grandes mistérios que envolvem nosso passado. Contém também muitos textos para sua meditação. Tarefa difícil, mas atraente. Neste Blog não há bloqueio para comentários sobre qualquer postagem.

A FOTO ACIMA É A VISÃO QUE TEMOS DA CHAPADA DO ARARIPE, A PARTIR DA NOSSA "VILA ENCANTADA".

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

PRAÇA SIQUEIRA CAMPOS - PALCO DA SAUDADE - Por Vicente Almeida

A PRAÇA SIQUEIRA CAMPOS, localizada no centro da cidade do Crato-CE, no princípio, iluminada por lampiões a gás, já foi decantada por tantos cratenses que parece não haver mais o que falar sobre ela.

VERDADE?

LEDO ENGANO!

COMO tantos outros, queremos aqui deixar registrada a nossa passagem por aquele logradouro tão nosso e tão cheio de encantos.

A PRAÇA marcou de forma indelével os jovens enamorados e boêmios que a transformaram em seu ponto de encontro nos anos cinqüenta, sessenta e setenta. Hoje alguns são sexagenários. Com muita honra sou um deles.

FUI um dos frequentadores dominicais daquele aprazível e aconchegante lugar na década de sessenta! E com a chegada da energia da CELCA, atual COELCE, ficou mais encantadora ainda.

NAS noites de sábado e domingo, os rapazes iam chegando e formando um cordão humano sobre a borda da calçada, circulando toda a praça, ora isolados, ora se agrupando e constituindo novas amizades.

ENQUANTO tagarelavam, observavam as jovens bem vestidas, belas e educadas, desfilando garbosamente dentro daquele círculo, confiantes e livremente, entre admirações e suspiros dos pretensos conquistadores.

OS bancos de marmorite, que havia em abundância, eram ocupados por muitas jovens e pelos mais velhos que iam para observar -fiscalizar filhas, sobrinhas e cunhadas. Era uma rígida disciplina aceita sem muito questionamento.

QUANDO localizávamos aquela que mais nos atraía e ela correspondia, começava o flerte, (piscadelas de olhos), rápido sorriso, e era só. Aí começava nosso sofrimento, pois a partir daí, a gente ficava ansioso aguardando o próximo domingo. É sim, o namoro não caia do céu num vapt vupt, como hoje.

NAQUELE tempo, após o primeiro flerte, transcorriam semanas, às vezes meses até que houvesse uma abordagem direta. E quando faltava coragem ao conquistador, o que era comum, e este era o meu caso, aparecia sempre um mediador para propiciar o encontro.

O CURIOSO é que após 20:00 horas, elas iam sumindo da Praça e ás 21:00 desapareciam completamente, ordem paterna seguida ao pé da letra. Nós rapazes, não tendo mais o que admirar, também íamos esvaziando a praça, deixando-a para os boêmios e noctívagos.

DIFÍCIL imaginar algum cratense ou visitante que não tenha frequentado aquela praça em uma noite de domingo. Ah, que saudades - Bons tempos aqueles!
 sessenta anos - Atente para o detalhe nos pés de benjamim nos canteiros. Era um trabalho artesanal caprichoso e de bom gosto - A Praça se tornou realmente um lugar romântico.

COMO, QUANDO E POR QUEM FOI IDEALIZADA E CONSTRUÍDA A PRAÇA SIQUEIRA CAMPOS? - QUEM PRESIDIU O ATO INAUGURAL? - PORQUE ESCOLHERAM ESSE NOME? A QUEM DEVEMOS ESSE PALCO DE RECORDAÇÕES?

VAMOS abrir o portal do tempo, voar nas asas da imaginação e acampar no passado, início do século XIX, lá por 1915.

ENCONTRAREMOS então, investido da função de Prefeito Municipal do Crato, o Coronel Teodorico Telles de Quental, de 1915 a 1919. Homem sério, enérgico e idealista e pai de seis filhos, três homens e três mulheres, a saber:

Coronel Filemon Fernandes Telles; agropecuarista, três vezes Prefeito Municipal, três vezes Deputado Estadual, e Presidente da Assembléia, ocasião em que exerceu a função de Governo do Estado do Ceará;

Doutor Joaquim Fernandes Telles, médico renomado, articulador da construção da Maternidade que recebeu seu nome, “Maternidade Dr. Joaquim Fernandes Telles” e após quarenta anos, foi alterado a revelia da comunidade cratense e hoje se chama Maternidade São Francisco. Foi Prefeito Municipal e Deputado Federal constituinte em 1.946;

Doutor Antonio Fernandes Telles, cirurgião-dentista, foi gerente do Banco do Cariri (atual BIC) e em 1921 foi o fundador da Farmácia Teles -Onde este narrador que vos escreve trabalhou na função de gerente, na década de sessenta.

As filhas eram: D. Maria Fernandes Telles, D. Teresa de Jesus Telles e D. Fernandina Telles. 

TRANSCORRIA ainda a primeira guerra mundial (1914/1917), quando nosso Prefeito, o Coronel Teodorico Telles de Quental, projetou a construção de uma praça para embelezar o centro da cidade como ponto turístico e apoio aos transeuntes para um ligeiro descanso.

COM essa finalidade utilizou uma quadra no coração da cidade, entre as Ruas Do Commércio (atual Dr. João Pessoa) e Rua do Fogo(atual Senador Pompeu), onde antes havia a Capela de São Vicente, demolida por ordem episcopal e posteriormente construída e transformada na Paróquia de São Vicente Ferrer onde hoje abriga o Santuário Diocesano do Crato.

COMO Praça projetada, seria a primeira do Crato. A Praça 3 de maio viria em 1921, a Praça Francisco Sá viria em 1938 e a Praça da Sé, durante muito tempo foi chamado apenas de quadro da Matriz por que havia apenas o terreno em frente a Igreja da Sé. 

ASSIM decidido, foram iniciadas as obras de construção daquela que seria o ponto de atração mais fascinante da população jovem e boêmia da urbe cratense.

CONCLUÍDA a Praça, optou-se pela denominação de: Praça Siqueira Campos. Essa não era uma pretensão política, tratava-se de uma justa homenagem a uma pessoa que contribuiu para o desenvolvimento do Crato. O homenageado, Senhor Manoel de Siqueira Campos, era um comerciante estabelecido em Crato, um homem sensível à necessidade alheia e ajudava desinteressadamente a todos que o procuravam, distribuindo gêneros alimentícios aos pobres nos tempos de calamidade, quando a seca assolava a região.

SIQUEIRA CAMPOS como se tornou conhecido, mandou efetuar e custeou vários serviços de utilidade pública no Crato, apenas para gerar empregos e minimizar a fome dos necessitados. DENTRE essas obras destacamos o calçamento da atual Rua Dr. João Pessoa, que naquele tempo ainda se chamava simplesmente Rua do Commércio, por que em sua extensão central, se concentrava as casas comerciais da época. Aquela artéria por ser na época a maior Rua, também foi conhecida com o nome de Rua Grande, mas parece que ficou apenas na tradição oral. Desconhecemos registros oficiais com esse nome.

QUANTO à denominação atual de Rua Dr. João Pessoa, somente a partir da de João Pessoa em 26/07/1930, foi que muitos logradouros no Brasil inteiro passaram a receber o seu nome, inclusive a capital do Estado da Paraíba, que também se chamava Paraíba e passou a se chamar João Pessoa. O leitor sabia disso?

ERA admirável o prestígio do Prefeito, Coronel Teodorico Telles de Quental, pois, para a inauguração da Praça recém construída, foram convidados e vieram de Fortaleza em comitiva, os Senhores: Dr. João Tomé de Saboia e Silva, 46º Presidente da Província do Ceará de 1916 a 1920, Dr. José Saboia de Albuquerque, Coronel Antonio Fiúza Pequeno, Secretários do Interior, Justiça e Fazenda respectivamente, e o Dr. Leonardo Mota, Secretário particular do Presidente, além dos jornalistas A. C. Mendes do Correio do Ceará e Júlio de Matos Ibiapina.

VALE esclarecer que essa comitiva fez o trajeto de Fortaleza ao Crato, cerca de 600 km, a cavalo, trocando suas montarias inúmeras vezes nos postos de troca e pousadas ao longo do percurso, e foi festivamente recebida em sua chegada no dia 13 de dezembro, véspera da inauguração da Praça. O trem, meio de transporte de massa, só chegaria ao Crato a partir 1926.

A SOLENIDADE de inauguração teve início ás 09 horas da manhã do dia 14 de Dezembro de 1.917 e foi presidida pelo Exmo. Sr. Dr. João Tomé de Saboia e Silva. Além dele e sua comitiva, ocuparam a tribuna de honra, o Coronel Teodorico Teles de Quental, Prefeito Municipal do Crato, e o homenageado: Sr. Manoel de Siqueira Campos.

A PRAÇA SIQUEIRA CAMPOS inaugurada em 1917, era singela e possuía apenas bancos artesanais de madeira em volta do canteiro central. Sem energia elétrica. A sete em negrito aponta para um poste de lampião a gás. As primeiras arvores estavam recém plantadas e eram ainda pequenos arbustos protegidos por cercados. A frente e a esquerda vemos a casa dos leões - Residencia dos Ascendentes da Professora Dionê Pinheiro. A direita um dos oito sobrados daquele tempo, que em 1947 foi substituído pelo Grande Hotel, demolido 61 anos depois, em 2008.
USARAM da palavra o Prefeito e o Presidente da Província do Ceará que discorreram sobre a inauguração e o homenageado, o qual, na ocasião se manifestou agradecendo a consideração que lhe foi atribuída como Patrono da Praça.

O acontecimento, contou ainda com a presença de autoridades eclesiásticas, civis e militares, representantes de classe, do povo em geral e da banda de música municipal.

SOBRE o homenageado: Manoel de Siqueira Campos. Muitos ainda pensam que ele era pernambucano por que lá viveu e morreu. De fato veio de Pernambuco, da cidade de Triunfo, onde havia fixado residência e se estabelecido comercialmente, mas, nasceu em 18/05/1874, aqui mesmo no Ceará em um lugarejo chamado Vila, a qual posteriormente passou a categoria de cidade e recebeu o nome de Porteiras. 
Esta é a segunda foto mais antiga, com a Praça energizada. Os pés de benjamim nos canteiros ainda eram miniaturas, atente também para a arquitetura dos prédios que contornavam a Praça naquele tempo. Que beleza. -Não conseguimos melhorar a resolução desta foto. 
AINDA NO PORTAL DO TEMPO PASSEMOS SEM MAIS DELONGAS AS BOAS LEMBRANÇAS DOS ANOS DOURADOS!

NESTA visão panorâmica e deste angulo, vemos a Praça Siqueira Campos e lá nos fundos as ruas Senador Pompeu, antiga Rua do Fogo e Monsenhor Assis Feitosa. Os canteiros ainda sem os benjamim. Observe o leitor, a beleza das fachadas das casas, como eram lindos!
A PRAÇA Siqueira Campos do meu tempo era muito bonita, canteiros maravilhosos e bem cuidados, bancos cômodos e condizentes com a época.

AS fotos da Praça, por si falam bem melhor desta postagem, embora em preto e branco mostram sua insinuante beleza, margeada por prédios residenciais em magnífico estilo.

Poderá também o leitor, observar o capricho artístico dos canteiros. Com a chegada da luz elétrica, postes de ferro fundido e bem trabalhado, ornamentavam a Praça e no topo luminárias leitosas. Larga calçada, hoje reduzida para tornar mais largas as ruas ao seu redor. À direita vemos um prédio de dois andares, que vem resistindo à modernidade, é o edifício do "Cassino Sul Americano". Hoje pertencente ao Senhor Francisco de Sousa Brasil Junior.
Cassino Sul Americano resistindo ao tempo e ao vento até hoje 27/11/2013
A PRAÇA SIQUEIRA CAMPOS daquele tempo, era um patrimônio dos nossos anos dourados, poderia ter sido tombada pelo Patrimônio Histórico! Não foi, tudo bem! Poderia ao rodapé do monumento ao seu patrono, ostentar uma placa com dados informativos alusivos a sua construção e não somente aquela que menciona a sua última reforma. Ainda é tempo para essa correção. A história precisa dos historiadores, mas em alguns casos, também precisa do apoio político para manter acesa a sua chama.
É... A Praça Siqueira Campos de outrora era realmente muito bonita e romântica e as copas dos benjamim continuavam sendo bem cuidadas artesanalmente. Em nome do progresso removeram a beleza das ruas destruindo o paralelepípedo. Faltou visão para manter os postes como ornamento. Eram belos. 
CONTUDO, restou em nossas lembranças, muita coisa boa daqueles tempos. A Praça foi cenário de eternas juras de amor com final feliz. Alguns contos quase de fada ali aconteceram e paralelamente as histórias de amor. A Praça Siqueira Campos, também foi palco de encontros de boêmios e seresteiros apaixonados que viravam a noite.
A IDEIA agora é abrir o cofre da memória dos seus frequentadores das décadas de 50, 60, 70 do século passado. antes que tudo passe em definitivo e nada mais reste. Se o leitor é daqueles tempos e conheceu a Praça, sabe o que estamos falando. Bom seria que os saudosistas promovessem anualmente uma noite de saudades lá na PRAÇA SIQUEIRA CAMPOS.
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Esta é a primeira postagem que escrevemos aqui no Laboratório Sideral sobre o passado glorioso da nossa terra o CRATO, terra de antigos caudilhos da política, terra de Bárbara de Alencar e de outros mártires. Hoje o Crato chora a ausência de personagens como aqueles.

NOTA: Credito para Huberto Cabral, -nossa enciclopédia ambulante, que em entrevista, nos prestou valiosas informações sobre a construção e inauguração da Praça Siqueira Campos.
Texto escrito por Vicente Almeida
27/11/2013

2 comentários:

  1. É...

    Lembro dos momentos felizes que passei na minha juventude. Na memória guardo com carinho lembranças e saudades.

    Conheci aquela Praça no seu apogeu e a lembrança daqueles dias nos traz uma saudade imensa e nos faz voltar no tempo.

    Tentando explicar a saudade elaboramos estas quadrinhas. Tudo bem se você não concordar!

    SAUDADE é dor que invade
    E desassossega a gente
    Não mata mais queima e arde
    No coração do vivente.

    SAUDADE é quando a lembrança
    Bate no peito e ressoa
    O coração pulsa e balança
    No fazendo rir a toa.

    SAUDADE é lembrar momentos
    Que nos deixa alvoroçados
    Mexendo nos fragmentos
    De bons tempos do passados.

    SAUDADE é um nó apertado
    Bem no meio do sossego
    É a lembrança do passado
    Querendo fazer chamego.

    SAUDADE é o pensamento
    Dando pinotes pra trás
    Resgatando do isolamento
    Coisas que não voltam mais

    Saudade é a mão gigante
    que aperta os corações
    Nos trazendo em um instante
    Lembranças e emoções.

    SAUDADE só dói no peito
    Ninguém sabe por que é
    Seria grande defeito
    Se ela doesse no pé.

    Hoje amanheci com a macaca
    E na saudade atirei
    Tantas havia na saca
    De onde vieram não sei!

    Vicente Almeida

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  2. Belíssima e inteligente postagem!
    Sinto saudades de um tempo que não vivi, pois sou um apaixonado por antiguidades ( principalmente pelos tradicionalismo e pela arquitetura ). Apesar de somente ter 18 anos, cresci ouvindo a boa música e vendo a tamanha emoção de meu avô e meu pai quando lembravam dos tempos áureos das décadas de 40,50,60,70.
    Infelizmente o interesse maior pelo lucro degradou as histórias do passado.
    Hoje os netos não conversam mais com os avôs e a tradição não é repassada.
    Este belo Brasil que herdou costumes Europeus, mas que contudo teve sua marca cultural que o peculiarizou não deveria ser apagado nas chamas do tempo.
    É por isso que quero ser um defensor eterno do passado e de sua história, tentando remendar as falhas deixadas pela modernidade que invertem os valores.
    Parabéns pela postagem mais uma vez, Sr. Vicente Almeida.
    Att,
    Pedro Afonso Sampaio

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