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O LABORATÓRIO SIDERAL leva até você, somente POSTAGENS de cunho cultural e educativo, que trata do universo; das gentes; das lendas; das religiões e seus mitos, e de forma especial, dos grandes mistérios que envolvem nosso passado. Contém também muitos textos para sua meditação. Tarefa difícil, mas atraente. Neste Blog não há bloqueio para comentários sobre qualquer postagem.

A FOTO ACIMA É A VISÃO QUE TEMOS DA CHAPADA DO ARARIPE, A PARTIR DA NOSSA "VILA ENCANTADA".

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

A DIVINA COMEDIA - INFERNO - CANTO VIII - Por Vicente Almeida

Canto VIII

Flégias - Demônios - A cidade de Dite

Eu devo explicar que, bem antes de chegarmos ao pé daquela torre, já observávamos as duas chamas que havia no seu cume. Na escuridão do rio, outra luz tão distante que quase não se via, respondia com um sinal. Voltei-me ao mar de toda sabedoria, e perguntei:
- Que sinais são estes? E aquela outra chama, o que ela responde? Quem é que as provoca?

- Sobre esta lama imunda em breve poderás perceber o que se espera - respondeu Virgílio.
Dante e Virgílio atravessando o rio Estige com o barqueiro Flégias - Ao fundo a cidade de Dite - Pintura de Eugene Delacroix 1822.
Mal ele terminara de falar, da escuridão surgiu um barquinho pilotado por um barqueiro solitário, cortando a água em nossa direção.

- Chegaste, alma culposa! - gritou ele ao ancorar.

- Flégias, Flégias, desta vez tu gritas em vão - respondeu o meu senhor, - pois só vais nos levar à outra margem e nada mais. Contendo a sua ira, o barqueiro concordou. Meu guia calmamente embarcou e depois eu entrei, e só então o barco pareceu carregado.
Flégias de pé aguardando o embarque de Dante e Virgílio para a travessia do mar de lama - Ilustração de Gustave Doré Século XIX
No meio do caminho, um ser lamacento surgiu das águas e me chamou, perguntando:

- Quem és tu que vens antes do tempo?

- Venho - respondi, - mas não demoro, mas quem és tu tão revoltoso?

- Eu sou um dos que chora, como podes ver.

- Com choro e com luto, espírito maldito, que assim permaneças, pois eu te conheço, mesmo tão sujo!

Depois que eu lhe respondi, ele irritou-se e saltou sobre o barco, tentando me agarrar. Virgílio, porém, foi mais rápido e conseguiu lançá-lo de volta ao rio.

- No mundo este homem foi pessoa orgulhosa - disse o mestre - e nada de bom resta em sua memória. Por isto é que sua alma está aqui tão furiosa. Vês, quantos lá em cima se julgam grandes reis e aqui estarão como porcos na lama?

- Mestre - falei, - muito me agradaria também vê-lo aqui afundado na lama antes que saíssemos deste lago.
Alma de Fillippo Argenti tentando subir no barco para agredir Dante - Ilustração de Gustave Doré - Século XIX
 - Antes que apareça a outra costa - respondeu o mestre - teu desejo será satisfeito.

Pouco depois, ouvi seus companheiros o massacrarem. Eles gritavam: "Vamos pegar Filippo Argenti!".

Deleitei-me ao ver aquele florentino arrogante morder a si mesmo com os dentes de raiva.

E lá o deixei, e disso não falo mais. Comecei, então, a ouvir vozes dolorosas, que me impeliram a olhar adiante.

- E agora meu filho - chamou-me o mestre - nos aproximamos da cidade que se chama Dite, com seus tristes cidadãos e grande companhia.

- Mestre, - observei - já posso ver as suas mesquitas logo acima do vale infernal! Elas brilham, vermelhas como ferro em brasa.

- É o fogo eterno que arde no seu interior que faz esse brilho rubro se espalhar pelo baixo inferno. - completou Virgílio.

Entramos no fosso que cerca a cidade e Flégias deu uma grande volta em torno dela, onde pude observar seus muros que pareciam ser de ferro. Quando chegamos diante da entrada da cidade, Flégias gritou alto com toda a força:

- Saiam! Saiam logo! É aqui a entrada. 

Descendo do barco, fomos recepcionados por um grupo de demônios. Eles chegaram e perguntaram:

- Quem é esse que, sem morte, anda pelo reino da morta gente?

O sábio mestre veio em meu auxílio. Dirigindo-se aos demônios, fez sinais indicando que gostaria de falar com eles secretamente. Responderam os diabos, disfarçando sua arrogância:

- Tudo bem, mas vem tu sozinho. E esse outro aí, que achava que podia andar como rei nesta terra, que prove que pode voltar sozinho se souber, pois tu que o guiaste até aqui vais ficar conosco!

Apavorei-me diante dessas palavras e temi não mais poder voltar a ver o mundo outra vez.

- Caro meu guia - chorei, em desespero -, que tantas vezes me deste segurança, não me deixes, por favor! Se não pudermos prosseguir nesta jornada, que voltemos já sem demora!

Mas ele, confiante, me respondeu:

- Não temas, porque o nosso passo, ninguém pode impedir. Mas espera aqui e descansa. Não deixes de ter esperança, pois podes ter certeza que não te deixarei sozinho neste mundo baixo.

Ele falou e foi encontrar-se com os diabos, e eu fiquei só a observar de longe. Não ouvi a conversa. Só vi a briga de longe e a porta da cidade se fechar diante de Virgílio, que voltou para mim cabisbaixo, em um passo lento.

- Olha só quem me nega a cidade da dor! - disse, triste - Mas não temas, pois ainda vencerei esta prova. A esta hora já deve estar no portal deste inferno alguém por quem esta entrada será aberta.

No Canto IX, veremos o Círculo 6 - da heresia
Vicente Almeida
10/01/2014

Um comentário:

  1. É...

    Este Canto não traz novidades relativo a punições. Trata basicamente da travessia do Rio Estige, pantanoso e lamacento que abriga as almas dos iracundos.

    Apresenta apenas dois novos personagens: Flégias, o barqueiro despido, rei mitológico dos Lapitas. O deus Apolo violou sua filha e como vingança, ele incendiou o templo de Apolo. Por não conter a sua ira, foi condenado, no inferno clássico, a permanecer logo abaixo de uma pedra enorme, pendente, sempre prestes a cair sobre ele.

    Filippo Argenti é conhecido apenas das obras de Dante e do Decamerão, de Boccaccio. Teria sido um guelfo muito rico, forte e orgulhoso, mas de pavio curto. A menor provocação era respondida de forma explosiva, irada e vingativa.

    A cidade de Dite é a cidade dolente, habitada pelos hereges que duvidavam da sua existência. Serve de divisão entre os pecados cometidos sem intenção (culpa) e os pecados cometidos conscientemente (dolo).

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