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O LABORATÓRIO SIDERAL leva até você, somente POSTAGENS de cunho cultural e educativo, que trata do universo; das gentes; das lendas; das religiões e seus mitos, e de forma especial, dos grandes mistérios que envolvem nosso passado. Contém também muitos textos para sua meditação. Tarefa difícil, mas atraente. Neste Blog não há bloqueio para comentários sobre qualquer postagem.

A FOTO ACIMA É A VISÃO QUE TEMOS DA CHAPADA DO ARARIPE, A PARTIR DA NOSSA "VILA ENCANTADA".

domingo, 25 de maio de 2014

A DIVINA COMÉDIA - INFERNO - CANTO XXIV - Por Vicente Almeida

Vala dos ladrões

Virgílio, visivelmente irritado, nada falou até que chegamos diante das ruínas da ponte. Lá, imediatamente recuperou o seu semblante amável e otimista. Estudou por um instante as ruínas e abriu os braços para que eu me apoiasse nele para realizar a subida. E assim subimos, lentamente, ele me erguendo, e eu abrindo caminho.

- Segura aquela pedra ali - ordenou o mestre -, mas tenha cuidado! Veja antes se ela te sustenta.

Foi dura e difícil a escalada. Fosse o aclive mais íngreme ou mais longo eu certamente seria vencido pelo cansaço. Em Malebolge, cada poço é mais baixo que o anterior, portanto, a altura da subida deste lado era bem menor que a altura da nossa descida do lado oposto.

Chegamos, enfim, à derradeira pedra da ruína. Eu estava tão exausto que assim que paramos, aproveitei a oportunidade para me sentar. O mestre não gostou:

- Precisas deixar o cansaço de lado - disse ele -, pois estirado sobre a pluma ou a colcha, a fama não se alcança. E sem ela a vida passa sem deixar qualquer vestígio. Levanta! Vence o cansaço e anima-te! Mais longa escada nos aguarda. Com ânimo se vence qualquer batalha, quando o corpo pesado não atrapalha.

Com esse incentivo prontamente me levantei, falante, para me mostrar valente e destemido. Mas minha fala foi interrompida por uma voz que surgia já do outro fosso.

Não dava para entender o que a voz dizia. Nem no meio da ponte. Era uma voz apressada, irritada. Eu me inclinei para olhar mas não dava para ver coisa alguma.

- Mestre - pedi - que tal atravessarmos até o outro lado e descermos o muro? Aqui onde estamos eu só ouço e nada entendo. Olho para baixo e nada vejo.

- O que pedires eu faço sem reclamar - respondeu Virgílio.

Descemos pela testa da ponte, pela oitava ribanceira que margeia a sétima calha, e lá vimos uma vasta multidão cercada de terríveis serpentes das mais diversas espécies. Só de pensar naqueles répteis terríveis meu sangue gela, pois eu nunca vira nada igual.

No meio das serpentes corriam almas nuas, horrorizadas, com as mãos amarradas às costas por outras cobras que as apertavam, envolvendo seus corpos.
Ladrões torturados por serpentes na sétima vala do Malebolge. Ilustração de Gustave Doré (séc XIX).

Assistimos quando uma serpente perfurou um dos espíritos que estava próximo a nós. Ela atravessou seu colo se inseriu no seu busto. Imediatamente ele se incendiou e foi reduzido a um amontoado de cinzas. Mas aquelas cinzas espalhadas começaram a se mexer, e, lentamente, a se unir. Foram se juntando sozinhas até que haviam formado um homem. Ele se levantou como se acordasse de um sono profundo. Estava pasmo e suspirava aflito. 
Ladrões torturados por serpentes na sétima vala do Malebolge. Ilustração de Giovanni Stradano
Meu guia então se aproximou e perguntou quem ele era. O condenado respondeu:

- Eu chovi de Toscana faz pouco tempo neste abismo. Eu gostava mais da vida bestial que da vida humana, como a mula que fui. Sou Vanni Fucci, a besta. Pistóia era a minha toca.

- Mestre - pedi -, pergunta a ele por que ele sofre nesta vala. Eu achava que ele estaria mergulhado no rio de sangue, como os outros violentos.

O pecador ouviu e não dissimulou. Virou-se para mim com um rosto envergonhado, e disse:

- Maior é a dor de teres me encontrado nesta miséria que a dor que senti quando perdi minha outra vida. Mas agora não posso negar-me em te responder. Eu estou aqui por que eu fui um ladrão. Fui eu quem roubou aquela sacristia onde outro levou a culpa.

Mas para que não fiques feliz por ter me encontrado aqui, se algum dia escapares, abre os ouvidos e escuta minha profecia: Pistóia perderá todos os seus Negros e Florença renovará gente e modos. De Valdimagra virá um raio envolvido por nuvens negras, trazendo uma tempestade amarga sobre o campo de Piceno, onde destruirá as nuvens claras, e todo Branco será então ferido.

Esta previsão eu fiz para que sofras! 

No Canto XXV veremos a transformação de almas em répteis.
Vicente Almeida
25/05/2014

Um comentário:

  1. É...

    Os ladrões recebem no inferno como contrapasso (retribuição) o roubo constante de seus corpos por serpentes e outros répteis mutantes que os atravessam e os desintegram, roubando seus traços humanos.

    Vanni Fucci era filho ilegítimo de Fuccio de Lazzari e militante ativo dos Neri de Pistóia. Era conhecido como um homem violento e depravado, mas que raramente era punido pois pertencia a uma família nobre e influente. Tendo sido banido de Pistóia por seus crimes, voltou à cidade na noite de Carnaval e roubou as jóias da sacristia da igreja de San Giacomo. Por aquele crime, um homem inocente (Rampino dei Foresi) foi preso, mas Vanni Fucci, que já havia deixado a cidade, enviou uma nota denunciando o receptador, que foi preso e enforcado, enquanto Rampino foi libertado.

    Previsões de Vanni Fucci referem-se ao seguinte acontecimento histórico: Em maio de 1301, os guelfos brancos (Bianchi) florentinos ajudaram os brancos de Pistóia a combater os guelfos negros (Neri), que então se refugiaram em Florença. Lá, eles se uniram ao partido negro de Florença e ajudaram a expulsar os brancos da cidade, com o apoio de Carlos de Valois.

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