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O LABORATÓRIO SIDERAL leva até você, somente POSTAGENS de cunho cultural e educativo, que trata do universo; das gentes; das lendas; das religiões e seus mitos, e de forma especial, dos grandes mistérios que envolvem nosso passado. Contém também muitos textos para sua meditação. Tarefa difícil, mas atraente. Neste Blog não há bloqueio para comentários sobre qualquer postagem.

A FOTO ACIMA É A VISÃO QUE TEMOS DA CHAPADA DO ARARIPE, A PARTIR DA NOSSA "VILA ENCANTADA".

quarta-feira, 25 de junho de 2014

A DIVINA COMÉDIA - INFERNO - CANTO XXX - Por Vicente Almeida

Falsificadores - Impostores - Perjuros
No Inferno, segundo Dante, a crueldade não tem limites - Ilustração de William Adolphe
Nem entre os loucos mais insanos se viu fúria e crueldade como aquela que se apossou de duas sombras pálidas, nuas, que se perseguiam pelo vale escuro como porcos soltos nas pocilgas. Uma delas afundou os dentes no pescoço de Capocchio e saiu arrastando-o para longe, esfolando seu ventre no chão áspero.

Ficou o alquimista de Arezzo, tremendo, que me disse:

- Aquele louco é Gianni Schicchi. Ele vive sempre assim raivoso e nos maltrata o tempo todo.

- Oh! - disse-lhe - Tomara que aquele outro não te morda também, mas, antes que ele se vá, dize-me quem é.

- Aquela é Mirra - disse -, a princesa depravada, que se tornou amante do seu próprio pai se passando por outra e assim enganou o rei. Da mesma maneira agiu Gianni, que se fez passar por Buoso Donati no seu leito de morte, falsificando o testamento em seu favor.
Mirra, a princesa depravada - Ilustração de Paul Gustave Doré
Depois que se foram os dois loucos raivosos, dos quais não desgrudei o olhar, voltei a minha atenção às outras almas. Vi então um deformado que parecia um violão. Seu corpo estava inchado por uma hidropisia tão grave que ele não conseguia se mover. A sua boca permanecia sempre aberta pois não conseguia fechá-la. Um lábio se recolhia para cima e o outro pendia, solto e pesado. Ao perceber que eu o olhava, ele falou:
Mestre Adamo o falsificador de dinheiro - Ilustração de Giovanni Stradano
- Ó vós que, não sei por que, não sofrem flagelo algum, vede aqui a miséria do mestre Adamo. Em vida, tive tudo o que quis e agora, eu faço qualquer coisa por uma gota d'água. A imagem das fontes e rios que descendem ao Arno me assombra eternamente e isto mais me castiga que o mal que resseca o meu rosto descarnado.

Fui eu quem falsificou a moeda cunhada com o Batista e por isto fui torrado na fogueira. O que eu mais queria era encontrar por aqui as almas malditas de Guido, Alessandro e seu irmão. Foram eles que me incentivaram a cunhar o florim com três quilates a menos. Dizem os raivosos que um dos malditos já chegou. Se eu fosse ligeiro o suficiente para me mover pelo menos uma polegada a cada cem anos eu já teria começado a procurá-lo, mesmo sabendo que é preciso percorrer 11 milhas para dar uma volta completa nesta vala, que pelo menos meia milha tem de largura.

- Quem são essas almas que fumegam ao teu lado? - perguntei.

- Elas já estavam aqui quando eu cheguei - respondeu - e, desde então, nunca se moveram. Ela é a falsa que acusou José do Egito. Este outro é o falso Sinón, o grego que mentiu em Tróia. Este fedor exalam por causa de sua febre aguda.

Sinón, talvez ofendido pelas palavras de Adamo, juntou as forças, levantou-se e o golpeou. O mestre Adamo retaliou imediatamente atingindo-lhe o rosto com o braço, e disse:

- Embora eu não possa caminhar por este vale, minha mão é livre para o que for preciso.

- Mas ela não estava tão livre quando tu seguias para a fogueira, estava? - respondeu irado o outro - Mas a tinhas muito bem quando cunhavas!

- Agora dizes a verdade, mas não fostes tão verdadeiro em Tróia! - respondeu Adamo.

- Minhas palavras foram falsas, assim como as moedas que fizestes! - gritou Sinón.

E assim os dois começaram uma interminável discussão, e eu permaneci, parado, absorvido pela briga, até que o mestre gritou, irritado:

- Vai, continua olhando! Mais um pouco e eu perco a paciência!

Fiquei tão envergonhado com a repreensão que mal consegui pedir desculpas. O mestre percebeu, e me disse:

- Menos vergonha que essa tua já seria suficiente para lavar falta maior. Deixa para lá, esquece! Mas lembra, se outra vez estiveres exposto a tais situações, cuides de procurar o meu apoio. Querer ouvir tais rixas é gostar de baixaria.
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Obs: Este é o último Canto em que a nudez da alma é explicitamente exposta pelos pintores e ilustradores do Poema.

NO Canto XXXI veremos Gigantes - Nemrod - Efialte - Anteu.
Vicente Almeida
25/06/2014

Um comentário:

  1. É...

    Esclarecimentos adicionais sobre este Canto:

    Falsificadores: O Canto XXX fala de mais três tipos de falsários (além dos alquimistas, falsificadores de matéria, encontrados no Canto XXIX). Os falsificadores de pessoas são os impostores que assumem identidades e se passam por outras pessoas.

    Nesta vala são punidos com a insanidade extrema e correm feito loucos pelo Malebolge mordendo e arrastando os outros condenados.

    Os falsificadores de palavras são os culpados de perjúrio, falsidade ideológica e falso testemunho. Fervem de febre tão intensa que os deixa imóveis.

    Os falsificadores de dinheiro se desfazem com uma hidropisia tão grave que os derrete totalmente. Sentem uma sede nunca saciada porém nos sonhos só vêem rios, fontes e muita água, o que os tortura ainda mais.

    Segundo Dorothy Sayers, a imagem de doentes pode representar a decadência da sociedade por causa da falsidade, com uma doença mortal e já em estado de necrose avançada. Malebolge começou com a corrupção da igreja e do estado.

    José do Egito - A mulher é a esposa de Potifar: O Gênesis (29) narra que José, filho de Israel, havia sido vendido como escravo por seus irmãos. Potifar, oficial do Faraó, comprou José que passou a servi-lo. Potifar em pouco tempo passou a confiar em José e o fez mordomo de sua mais alta confiança.

    A esposa de Potifar, porém, tentou seduzir José a ir para a cama com ela. José recusou. Ela não desistiu. Passou a insistir dia após dia. José sempre recusava. Um dia, ela encontrou-se a sós com ele, agarrou-lhe pela capa e tentou seduzi-lo à força. Ele fugiu, deixando a capa nas mãos dela. Ela então mentiu para seu marido dizendo que José havia tentado violentá-la, mostrando a capa como prova. Potifar, acreditando na palavra da mulher, expulsou José e mandou prendê-lo no cárcere (Gênese 39).

    Gianni Schicchi pertencia à família Cavalcanti, de Florença. Era exímio em disfarces e na arte da imitação. Segundo Benvenuto, Buoso Donati foi um ilustre nobre de Florença que, ao sentir que a hora de sua morte se aproximava, teve uma crise de consciência por ter enriquecido ilicitamente através de roubos, e decidiu deixar gordos legados para diversas pessoas que ele poderia ter prejudicado. Porém, o seu filho Simone, se sentindo prejudicado, contratou os serviços de Gianni para que este se passasse por seu pai, elaborando um novo testamento que desfazia o primeiro e declarando como único herdeiro o seu filho Simone Donati. No testamento, Gianni não se esqueceu dele próprio. Incluiu no testamento a seguinte cláusula: "para Gianni Schicchi de Cavalcanti eu deixo a minha égua".

    Mirra era filha do rei Ciniras. Apaixonada pelo próprio pai, tramou com sua ama uma forma de entrar nos seus aposentos à noite e passar por uma jovem aguardada pelo rei. No escuro, o rei não a reconheceu e manteve, sem saber, relações sexuais com a própria filha. Mirra voltou várias outras vezes até que, numa certa noite, o rei, desejando saber quem era aquela que tanto o amava, acendeu uma tocha e viu que era Mirra. Ele sacou a espada para matá-la mas ela fugiu. Arrependida, pediu perdão aos deuses e foi transformada em uma árvore: um pé de mirra. O seu filho, quando finalmente nasceu, se chamou Adonis.

    Mestre Adamo era um falsificador de moedas da Brescia que, instigado pelos condes Guido, Alessandro e Aguinolfo de Romena falsificou o florim de ouro de Florença, cunhando a moeda com 21 quilates em vez de 24 (três a menos, como diz no poema).

    Florim: A moeda de Florença (florim) tinha gravada em um dos lados, o padroeiro da cidade, João Batista, e do outro, um lírio.

    Sinon foi o grego que, deixando-se levar prisioneiro pelos troianos, os convenceu a levarem, para dentro das paredes da cidade, um grande cavalo de madeira deixado pelos gregos. O cavalo, disse, era um presente dos gregos para substituir a estátua de Palas (Palladium) roubada por Ulisses e Diomedes. O cavalo estava repleto de soldados que, à noite, saíram de seu esconderijo e tomaram Tróia.

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