OBRIGADO PELA VISITA

O LABORATÓRIO SIDERAL leva até você, somente POSTAGENS de cunho cultural e educativo, que trata do universo; das gentes; das lendas; das religiões e seus mitos, e de forma especial, dos grandes mistérios que envolvem nosso passado. Contém também muitos textos para sua meditação. Tarefa difícil, mas atraente. Neste Blog não há bloqueio para comentários sobre qualquer postagem.

A FOTO ACIMA É A VISÃO QUE TEMOS DA CHAPADA DO ARARIPE, A PARTIR DA NOSSA "VILA ENCANTADA".

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

MEUS TEMPOS DE CRIANÇA - Por Artemísia


MEUS TEMPOS DE CRIANÇA
- Por que não lembrar?

Mais história:

Foi "Pensando em você", que nos idos de cinquenta e sessenta do século passado viveu na zona rural, que trabalhou duro para  conquistar espaço no mercado de trabalho, que conseguiu se formar conforme suas aspirações, que pertencia a uma família numerosa, 5, 10, 12 15 filhos ou mais: Que brincava, mas também trabalhava desde a infância! Que gostou de bonecas! De pião! De bicheira! De anel! De três três passarão! De Cinturão Queimado, De Esconde Esconde, De cantigas de rodas! De teatro rural que chamávamos de Dramas! De tertúlias ao pé de uma radiola a pilha, onde rapazes e moças se divertiam a bessa... Eramos todos felizes apesar de todas as dificuldades do tempo.

O texto abaixo foi escrito "Pensando em você".


*************************************** 

As empresas buscam a criatividade à sobrevivência. Há, na Literatura, diversas obras falando da mente criativa. Brasileiro é criativo.

Nordestino então! Vejam que “povinho” criativo. usava uma criatividade pura e ingênua. A tecnologia era a mais arcaica, rústica, digamos assim.

Eu já sou do tempo da lamparina fabricada com flandres. Um trabalho artesanal. As lamparinas da minha casa lembravam uma rainha do jogo de Xadrez. Sua base circular, uma longa saia de rodada. O combustível era o querosene, o pavio era de algodão!

Havia algodão!

Hoje eu nem sei como ou do que é feito o pavio de uma lamparina. Sei que ainda existe aonde não chegou a eletricidade. Lamparina feita da lata de óleo, já era reaproveitamento, não por questões ambientais, mas por necessidade financeira. A matéria prima era lixo. Eles nem sabiam, mas contribuíam para o bem estar do Planeta.

A criatividade dessa gente do interior é tanta para a sua sobrevivência que as crianças desenvolvem desde cedo a sua.

Numa família de onze filhos haja paciência para aturar tanta criatividade. Nosso privilegiado grupo foi migrando para a cidade a fim de estudar.

Ao retornar ao sítio, uma das jovens aproveitava os três meses de férias para criar a sua “escola”. Era o curso de férias, isso não é novidade.

Encerrando o curso ao final dos três meses, retornava à cidade para dar continuidade aos seus estudos. Isso foi rotina por vários anos!

Como estava dizendo, o encerramento do curso era um motivo de festa. Para organizar o evento havia a mais pura e verdadeira criatividade.

Um povo que nada sabia da arte de representar, fazia teatro, dança canto e contava piada. Era um show de humor. Um show de variedades. Sob o comando da “professora”, fazia arte sem saber que estava atuando, dramatizando.

Teatro é vida, é instinto, diz alguém que está ao meu lado quase ouvindo o meu Tico e Teco!

Não havia orientação de especialista, nem cenário. Tudo era improvisado. Era a comédia em pé, tão em evidência atualmente.

Dramatizavam.

Uma cantiga de roda:

A Linda Rosa Juvenil: - A Rosa, o Príncipe e a Bruxa, pronto! Era um show!

Ou improvisavam uma peça...

... O Vira Lata por exemplo:

Entregavam uma lata a alguém, pediam que ele virasse a lata, mandava que virasse outra vez, mais uma e mais outra...

... Depois de tantas vezes virar a lata Olhava para a plateia e dizia: _ Vocês acabam de ver o maior vira lata do mundo!

Olhava para a plateia, sim e era um “Respeitável Público”.

A mulher que bebia pinga:

- O homem dizia: Mulher, não beba da pinga que eu te dou uma aliança e ela respondia:
- Aliança que pula e dança marido, eu quero é beber pinga.

O marido oferecia anel, saia, pulseira, batom, mas nada ela queria. Somente a danada da pinga, cuja bebida anda muito apreciada ultimamente por diversas idades e gêneros naquele recanto do país. E por falar em país, é como se vivêssemos em outro país.

Era uma década conturbada no Sul e Sudeste, nas grandes cidades. Não havia energia elétrica, logo não se tinha acesso à televisão. Imprensa escrita era coisa de poucos. Não é que fôssemos alienados, vivíamos alienados.

Nossa arte era inocente!

Não sabíamos que, enquanto representávamos com nossas doces brincadeiras, jovens e adultos, estudantes, profissionais e políticos eram torturados, mortos, exilados, por não beberem do vinho do mesmo cálice. A História nos conta fatos inacreditáveis. Mas acreditamos que somos fortes e podemos mudar.

Deixemos a dor aos fracos!

Vamos às brincadeiras que talvez nos tenham conduzido ao que hoje somos. Profissionais competentes, comprometidos nos seus sacerdócios.

A professorinha das férias por exemplo é Especialista em Letras. Não desistiu do seu sonho. Foi longe. Enfrentou desafios e muitas pedras no caminho. Caminhou, formou mentes criativas ou não, não se sabe, mas contribuiu para um país melhor.

Como é bom fazer essa viagem no tempo!

Resgatar lembranças quase perdidas!

Tudo isso acontecia no tempo de Roberto Carlos, Jerry Adriani, Wanderley Cardoso, Beatles, Michael Jackson criança... Muitos cantores brasileiros cantavam em inglês e tinham nomes esquisitos!

Em nossos shows de variedades eram estes os nossos ícones. Éramos os seus fãs. Levávamos suas canções ao palco-chão-alpendre da velha prima de nossa mãe, Maria Rogério.

Ah, Maria Rogério, Mimim,  uma mulher à frente do seu tempo. Ela merece uma história à parte.

Não me perguntem como aprendíamos as canções. Tudo era oralidade. O rádio de pilha era uma fortuna, não mais o rádio, a pilha. Haja dinheiro para mantê-lo!

Voltemos ao drama!

Era assim que chamávamos as nossas dramatizações de mentirinha.

Imitando um programa de TV (da cidade), nosso show acontecia na zona rural, sem energia não esqueça esse detalhe. Uma garota respondia a um questionário sobre a vida de Maria Rogério.

Havia a música da barata. Não, não aquela da vizinha. Era assim:

- Mulher vai lavar tua cara.
- Eu não que meu lábio dói.
- Pois passa banha de porco.
- Eu não que a barata rói

(Coitada da mulher, sempre a mulher...)

Havia a mágica do fundo do prato para ficar bonita.

O fundo prato, por baixo, todo encarvoado, enfumaçado. A bendita ou o bendito passava a mão embaixo do prato e no rosto, sem olhar, claro. Ao se ver no espelho, era aquele susto! O rosto estava preto.

E não venha me dizer que era preconceito. Nem se ouvia esta palavra naquele tempo. Hoje, virou moda. Tudo é preconceito. Éramos muito inocentes para sermos preconceituosos com bobagens!

A vida seguia imitando a arte ou era a arte que seguia imitando a nossa vida? Não sei. Só sei que fazíamos arte com muita criatividade.


Copiado do Blog: www.artemisia-palavraspalavras.blogspot.com.br
Mediante autorização da administradora.

Escrito por Artemísia
11/12/2012

17 comentários:

  1. Vicente!
    Quanta alegria você me proporcionou com esta bela surpresa!
    Reli o texto na íntegra, ficou maravilhoso, até parece que foi escrito por pessoa que sabe das coisas: escritor de verdade!
    Amei!
    Obrigada, fiquei realmente feliz.
    Artemísia

    ResponderExcluir
  2. Eh...

    Artemísia:

    Também nasci na roça. Vivi tudo isso que você narrou.

    Felizes aqueles que lembram com alegria, de momentos inesquecíveis como os da infância e da adolescência.

    O maior obstáculo era exatamente estudar. Tínhamos obrigações na roça.

    Nossos primeiros professores eram realmente as professorinhas de férias, elas sempre traziam novidades da cidade para os matutos, não eramos aqueles matutos depreciados pelos da cidade, mas matuto por que morávamos no mato, na zona rural.

    Como foi difícil e como cada momento daqueles foi tão importante no meu hoje.

    Valeu relembrar.

    Bela postagem

    ResponderExcluir
  3. Oi, compadre Vicente, e as quadrinhas:

    Lua de prata
    presa emcetim
    Brilhas tão linda
    longe de mim.

    Minha gente,venha ver
    coisa que nunca se viu:
    o tição brigou com a brasa
    e a panelinha caiu.

    Não tenho medo do homem,
    nem do ronco que ele tem.
    O besouro também ronca.
    Vai se ver não é ninguém.

    Todo mundo se admira
    Da macaca fazer renda.
    Eu já vi uma macaca
    Ser caixeira duma venda.

    Acostumei tanto os meus olhos
    A namorarem os teus,
    Que, de tantto confundi-los,
    Nem já sei quais são os meus.

    O castelo pegou fogo,
    São Francisco deu sinal.
    Acorde ,acorde,acorde
    a bandeira nacional.

    Do pinheiro nasce a pinha
    Da pinha nasce o pinhão
    Da mulher nasce a firmeza
    Do homem a ingratidão.

    Um abraço compadre.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ilmorais, também conheço algumas:
      "Menino dos olhos verdes,
      me dá água pra beber
      não é fome e nem é sede
      é vontade de te ver!"

      "Menino dos olhos verdes,
      sobrancelha de veludo
      menino, teu pai é pobre
      mas teus olhos valem tudo!"
      ...
      Que saudade!
      E as brincadeiras: meu lado direito desocupado: caí no poço?!...

      Excluir
  4. Artemisia:

    Seu texto postado por Vicente foi uma realidade de muita gente.
    Eu, me identifico com quase tudo que foi citado. Comigo houve
    uma diferença: "eram coisas mais humildes e simples".......
    Nem quero pensar em descrever minha infância no mato, como era chamado na época. Mais tarde se dizia SÍTIO e hoje: FAZENDA!

    Eu fui da ROÇA mesmo. Do trabalho pesado, cumprindo as obrigações estipuladas
    pelos meus pais. Era a vida da época.

    Você, Vicente, foi mais moderno.
    Acredito que nada disso influenciou a minha personalidade no que tange a
    criação que tive. Era o que os meus podiam oferecer. Eles proporcionaram o
    que a situação financeira lhes permitiam.
    Fideralina.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Fideralina, fui da roça até os dez anos de idade. Quando Anésia se casou e foi morar na cidade pediu uma irmãzinha e a premiada fui eu. Olhe que maravilha! Saí da roça, mas em compensação saí do seio familiar e ganhei outra família.
      Não sei se você morou em Várzea Alegre ou se ia apenas a passeio. Eu conheci você. Você um dia disse que não lembra mais de mim. Lembra da Isabel, Anésia, esposa de Senhor?
      Não tem problema se não lembrar. Te respeito do mesmo jeito.
      Um grande abraço!
      Artemísia

      Excluir
  5. Eh...

    Artemísia:

    Também sou teu fã. Tu eis uma magnífica escritora. Não pense ao contrário.

    Também tenho umas quadrinhas da minha infância, ou era da aborrescência, não, acho que era mesmo da adolescência.

    Veja, tudo de pé quebrado:

    Subi na laranjeira
    Para ver o meu amor
    Não vi, desci.

    Lá vem a lua saindo
    Redonda como um tostão
    Se tu não queria namorar com eu
    Por que fez eu vender minha bicicleta?

    Não inventei o seu amor
    E você gostava deu
    Mas você me abandonou
    Quando o outro apareceu

    ResponderExcluir
  6. Artemísia

    Que beleza de descrição!

    Acho que você inseriu todas as garotas do meu tempo. Todas aquelas que nasceram e durante muito tempo viveram na zona rural.

    Fui uma delas e hoje me orgulho do meu passado lá na roça.

    As brincadeiras eram iguais as da sua narrativa. Amei e gamei na sua postagem.

    Um grande abraço

    Valdênia Almeida

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Valdênia,
      obrigada por seu carinho.
      Vou rebuscando na memória as coisas da nossa vivência na roça ou na cidade pequena que não havia muita diferença na cultura daquela época.
      Beijos.
      Artemísia

      Excluir
  7. Eh...

    Meu compadre Lisboa:

    A única quadrinha clássica que decorei na minha juventude nos tempos das minhas graaandes paixões foi esta:

    Com pena peguei na pena
    Com pena de não te ver
    A pena caiu da mão
    Com saudade de você.

    ResponderExcluir
  8. Não vou ficar de fora. Lembro de uma quadrinha, coisa de menina apaixonada.

    Com S escrevo SAUDADE
    Com R Recordação
    Com W posso escrever:
    ........... do meu coração.

    É isso aí, amigos.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Fideralina,
      essas quadrinhas são demais!
      Cada um foi relembrando e quantas ainda temos guardadas?!
      Abraço
      Artemísia

      Excluir
  9. Artemísia

    Lembro dos versinhos que recitávamos na escola, nos dias de sábado, depois da sabatina. Nossa professora lá no Sítio era Lourdes Sátiro.

    O que mais era recitado era:

    Batatinha quando nasce
    Se esparrama pelo chão
    Minha mãe quando me beija
    Leva a mão ao coração

    Da tua casa pra minha
    Tem um riacho no meio
    Tu de lá dá um suspiro
    E eu de cá suspiro e meio

    Mas tinha os colegas, os garotos debochados que recitavam assim:

    Da tua casa pra minha
    Tem um riacho no meio
    Tu de lá da um suspiro
    E eu de cá nem mode coisa

    La vem a lua saindo
    Redonda como um vintém
    Se eu não me casar contigo
    Não me caso com ninguém.

    E o debochando:

    Lá vem a lua saindo
    Redonda como um vintém
    No dia que não te vejo
    Não boto feijão no fogo.

    E por ai vai.

    Lembro a você que também integro a família Sátiro do Sítio Pai Mané, no Distrito de Ponta da Serra no Crato. Não sei se há ligação com sua família.

    Abraços

    Valdênia Almeida

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Valdênia, você é muito intuitiva, quando vi o nome Sátiro logo me veio a ideia de perguntar se era das minhas bandas. Quem sabe! Verei se descubro em janeiro quando aí estiver.
      Um abraço

      Excluir
  10. Eh...

    Artemísia:

    Se a postagem visava relembrar nossa juventude, conseguiu de fato. Há um mundão de coisas boas a relembrar.

    E o meu compadre Lisboa lembrou muito bem de tantas e tantas quadrinhas inventadas ou decoradas por tradição.

    Que bom quando não havia TV nem novelas, nem crimes, nem medo de ser feliz.

    A noitinha, depois da janta, nosso pais - um ou ambos costumavam visitar os amigos e nos levavam juntos para brincar com os filhos de seus amigos. Eram garotos e garotas. Enquanto eles proseavam, a gente se divertia paca. Mas no melhor da brincadeira o pai chegava e dizia vamos pra casa que já é muito tarde. TARDE? Isso era mais ou menos oito horas da noite.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Vicente,
      parece que vivíamos no mesmo grupo!
      E as esperas de Galo na Sexta-Feira Santa?
      E a Fogueira de São João?

      Temos aqui já uma boa matéria para postagem, vou roubá-la do seu Blog e postar no palavras.
      Um grande abraço,
      Artemísia

      Excluir
    2. Eh...

      Artemísia:

      São tantas as lembranças boas da nossa juventude que são impossíveis esquecê-las. Elas ficaram armazenadas lá num cantinho da memória e vez ou outra temos acesso a uma porção delas, como está ocorrendo neste momento.

      Fique à vontade para duplicar no "PALAVRAS" qualquer matéria postada aqui no Laboratório Sideral

      Excluir