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O LABORATÓRIO SIDERAL leva até você, somente POSTAGENS de cunho cultural e educativo, que trata do universo; das gentes; das lendas; das religiões e seus mitos, e de forma especial, dos grandes mistérios que envolvem nosso passado. Contém também muitos textos para sua meditação. Tarefa difícil, mas atraente. Neste Blog não há bloqueio para comentários sobre qualquer postagem.

A FOTO ACIMA É A VISÃO QUE TEMOS DA CHAPADA DO ARARIPE, A PARTIR DA NOSSA "VILA ENCANTADA".

sábado, 7 de dezembro de 2013

A SECA E A FOME NO PASSADO - Por Vicente Almeida

No final do século XIX, lá por 1877 houve uma grande e devastadora seca no Nordeste brasileiro.

Na zona rural, a fome era muito grande e não havia como o governo transportar alimentos dos centros produtivos, distante centenas de léguas para a aridez do nordeste, região mais castigada pela ausência de chuvas.

Qualquer produto alimentício era transportado por meio de animais domésticos; burros, cavalos e jumentos e para chegar ao destino as vezes passavam meses, até mesmo esses animais morriam pelo caminho. Os restantes, quando chegavam com o alimento, muita gente já havia morrido de fome, principalmente crianças.

A cena era muito triste e desoladora. O leitor poderá imaginar a situação: Um chefe de família com um, dois ou mais filhos passando dias e dias acordando e dormindo de barriga murcha e muitos já não acordavam mais no dia seguinte.

A ausência de comida matava muita gente, fato que se tornou corriqueiro naqueles tempos, por que imensas distancias separavam o Nordeste dos centros produtivos do Sul e ainda não havia estradas nem meios de comunicação.

Na aridez de nossos sertões, quando o nordestino nada mais tinha para saciar sua fome lançava mão de todos os meios possíveis para sobreviver ao menos até o dia seguinte, sem saber por quanto tempo ainda duraria.

Eles adotaram todos os meios possíveis de sobrevivência. De principio iam cozinhando todos os animais domésticos; gatos, cães, papagaios e outras aves.

Comiam qualquer pequeno animal que conseguiam capturar; uma lagartixa, um calango, e tantos outros que também estavam em extinção por falta de alimento por que o controle biológico fora afetado. Naquele tempo torravam e comiam até sola de sapato. Sim  leitor, naquele tempo todo sapato era de couro e serviu de alimento para muita gente.

Durante a seca tremenda que nossos ancestrais sofreram havia uma família e nela uma criança de uns cinco ou seis anos dono de um cão, que era muito amigo de todos, principalmente da criança, seu dono. Aonde um ia o outro ia atrás e dormiam juntos em uma esteira o cantinho do quarto.

Pois bem, quando a fome superou a razão, a família decidiu matar o cão, cozinhar com água e sal e comer.

Foram então comunicar a criança que seu cão seria sacrificado em benefício dos sobreviventes.

Ao ser informado, chorou todas as lágrimas que podia, embora a fome fosse alucinante não queria se separar do cão, seu fiel amigo, que aquela altura já estava também muito magro.

A família decidiu então não matar mais o cão. Ai a criança chorou bastante por que estava com fome e não tinham mais o que comer, já que não iam mais matar o cão.

Sem alternativas decidiram novamente matar o cão e quando a criança viu seu amigo morto chorou alucinadamente por que não tinha mais um amigo para abraçar e brincar.

Finalmente fatiaram o cão e chamaram a criança para comer sua parte, ela chorou como louca para não comer seu amigo.

Como todos os membros da família estavam com muita fome comeram tudo, pilaram até os ossos para fazer farinha.

Quando a criança parou de chorar sentiu mais fome ainda e foi pedir sua parte no cão. todos olharam para ele e pesarosos disseram: Comemos tudo, você falou que não queria!

Ai a criança chorou até o dia seguinte por que não comeu do seu cão.

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Uns vinte ou trinta anos depois, já no século XX, a história da seca foi ficando para trás e era triste relembrar.

Entretanto a ocorrência com a criança não foi esquecida e os sobreviventes contavam como algo engraçado, por que ela havia chorado para não matarem seu cão, depois por que desistiram de matar, ai chorou por que decidiram novamente sacrificar o cão, depois chorou ao ver o cão morto, chorou para não comer dele e finalmente chorou por que não comeu do seu cão.

Minha esposa, descendente de espanhóis, historiadora e contadora de causos sobre seus antepassados, fala que sua avó materna nascida em 1890 contava com frequência essa história que ouviu de alguém e ainda hoje é repetida por seus descendentes.
Escrito por Vicente Almeida
07/12/2013

Um comentário:

  1. É...

    Hoje, com a tecnologia de ponta, que torna possível sabermos tudo no momento da ocorrência, ainda existe muitos governos gananciosos fazendo seu povo levar uma vida miserável.

    Ganancia, fome e miséria estão sempre de mãos dadas, nunca se separam.

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