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A FOTO ACIMA É A VISÃO QUE TEMOS DA CHAPADA DO ARARIPE, A PARTIR DA NOSSA "VILA ENCANTADA".

terça-feira, 7 de agosto de 2012

O MARGINAL - Por Vicente Almeida

MINHA HISTÓRIA

... Tudo começou quando percebi estar em um lugar permanentemente escuro, sentindo-me como se estivesse flutuando em um líquido. Sem dificuldades  podia ficar em várias posições, e todas bastante cômodas. Estava confinado em algum lugar, tinha consciência da minha existência, e o ambiente onde me encontrava era bastante agradável.

Havia momentos em que me sentia transportado de um lugar para outro, sem fazer o menor esforço. Ouvia ou percebia barulhos, como se viessem de algum ponto, próximo de onde me encontrava.

Às vezes adormecia e acordava com algumas batidas fortes dentro de mim e ficava assustado, não sabia ainda que era o meu coração. 

À medida que adquiria consciência de mim, sentia meu corpo passando por grandes transformações. No princípio era uma diminuta massinha disforme, mas essa massinha estava crescendo e formando partes bem definidas.

Foi aí que passei a sentir e acompanhar o desenrolar dessas transformações:

Num dado momento, meu corpo inteiriço quase se dividiu e na parte menor que viria a ser minha cabeça senti existir algumas aberturas especiais que formariam:

Minha boquinha, e sabia que iria utilizá-la para me alimentar e me comunicar com o mundo exterior, manifestando minha vontade e minhas ideias;

Acima da boca, dois pequenos orifícios formariam as narinas, que seriam utilizadas para a percepção das emanações voláteis dos corpos, os odores;

Um pouco mais acima, dentro de duas concavidades uma ao lado da outra começaram a se formar duas pequenas esferas que também fiquei sabendo necessárias para visualizar as belezas do mundo exterior;

Por último percebi duas cavidades laterais, tão extraordinários quanto às outras formações anatômicas, e experimentei a sensação de ouvir e reagir aos ruídos externos, inclusive a voz de alguém que falava muito comigo e acariciava a parte externa do lugar onde me encontrava.

Senti o que seria o pescoço, distanciando a minha cabeça do tronco.

Abaixo da cabeça e na maior parte do meu corpo, quatro pequeninos cotos também cresciam. Estava informado que seriam meus braços e pernas e todas as articulações necessárias a minha locomoção.

Mas não parava por aqui, Na parte inferior do meu corpo, senti se formaram mais dois orifícios: Vim a saber que um, seria utilizado para expelir os excrementos sólidos, e o outra para eliminar substancias líquidas, já inúteis ao meu organismo.

Fiquei maravilhado com a formação da parte interna do meu corpo, todos os órgãos iam sendo plasmados, cada um segundo a sua natureza e utilidade.

Aos poucos ia me sentindo como se estivesse recebendo e processando cada vez mais informações, mais conhecimentos. Fiquei sabendo das minhas origens e o porquê desta situação.

Descobri onde estou!

É, estou em transição pelo processo chamado gestação, na barriga de um ser maravilhoso. Ouço tudo que falam perto de mim, e agora sei que dentro de mais algum tempo devo sair de onde estou, e terei o prazer de ver o ser que me mantém neste saudável aconchego e dizem que a chamarei de mãe. Minha vida aqui é muito boa, só comer, dormir, ouvir, crescer e esperar.

Sinto como se falassem dentro de mim, que tenho como principal missão, contribuir para a transformação de uma pessoa, que ainda é insensível ao amor, e se eu não chegar a tempo, ela sucumbirá desviando-se do bom caminho. "Dizem que vou conhecê-la ao ouvir sua voz pela primeira vez".

O tempo passou. Sinto-me quase pronto para abandonar meu confortável abrigo e ver o mundo exterior.

EPA, neste momento sinto uma pressão indescritível dentro de mim, e percebo minha mãe dando voltas como se estivesse insegura com algo. Parece que ela está aguardando alguém.

Noto que está muito apreensiva, e isto muito me entristece. Estávamos tão bem que me surpreendi com o seu comportamento! Recebi suas amarguras e estou assustado, com muito medo. É não sei de onde, mas já conheço esta palavra e o seu significado – Medo!

Como já ouvia bem as conversas exteriores, fiquei sabendo que a minha mãe não tinha como me sustentar sozinha e estava aguardando alguém que poderia resolver esse problema, talvez por isto estivesse tão ansiosa.

Aguardei silenciosamente, depois comecei a ouvi barulhos. Uma pessoa chegou e está a longo tempo conversando com ela... 

Enquanto conversavam senti que a  mamãe derramava algo quente sobre mim e me queimava. Percebi que sua aflição me era repassada. Ela chorava muito e a ouvi falar que foi enganada com promessas. Era isso mesmo, alguém a enganara.

Silenciaram. Instantes depois percebi que estavam brigando com ela e se exaltando cada vez mais...

Subitamente ouvi um ensurdecedor estrondo... Algo atravessou o meu corpinho... Tive uma sensação desconhecida e dolorosa...

...Senti uma imensa dor pela primeira vez, e compreendi que os meus sonhos terminavam naquele momento.

Minhas forças vitais estavam desaparecendo e eu pensava na minha mãezinha que, com o barulho caiu com grande impacto.

Em meu pensar pequenino, sentia angústia, muita angústia. Nada podia fazer por ela. Estava ali, preso naquele aconchegante quartinho. Senti o coração de minha mãe parar, e minha aflição se transformou em terror.

E pensei: E agora, como poderia salvar uma pessoa, se nem ia nascer? E aquela criatura que eu deveria ajudar a transformar sua vida? Como fazer para avisá-la?

Aos poucos, fui como que adormecendo, minha vida corpórea foi se extinguindo, não tinha mais forças e um liquido me inundava e me asfixiava. Já não podia respirar. Vim a saber que era sangue, o meu sangue e o da minha mãezinha que se misturavam!

Ainda senti que se aproximarem do corpo da minha mãezinha, e falar bem próximo a sua barriga... Consegui ouvir um murmúrio:

“Vocês não viverão, eu não quero filho nem mulher”.

De repente fiquei atordoado, estava recebendo a última informação. A voz do nosso algoz era a mesma daquele que entendi ser meu pai. Era também a voz daquele a quem tinha a missão de ajudar a mudar o rumo da sua vida... Mas ele não se deu chance!

Ainda era um terrível marginal... E nos assassinou!!!

Escrito por Vicente Almeida
07/08/2012

3 comentários:

  1. Ufa! Que história!
    Que imaginação fértil, parabéns!

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  2. Eh...

    Artemísia:

    Infelizmente esta história poderia ser a de qualquer um, contada por quem está do outro lado da vida.

    Nossa intenção com este conto, é mostrar que a criança em gestação possui sensibilidade e a medida que o tempo vai pasando, percebe mais e mais coisas.

    Nos dias correntes, as pessoas executam um aborto, mal imaginando que ali existe um ser inteligente e com uma razão de ser e de estar ali.

    Pensam que se trata de um simples bolinho de carne sem vida que estão estirpando do ventre materno como se fosse um cisto.

    O que ocorre naquele quartinho aconchegante e aparentemente insdevassável só ele e Deus sabem.

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    Respostas
    1. Vicente, há pessoas que provocam aborto como se estivessem brincando de boneca, sem o menor remorso. Não sei porque, mas seria mais honesto evitar a gravidez, embora não seja o plano de Deus. Deus também não quer sofrer aborto! E muitos o abortam.
      Um grande abraço.

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