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A FOTO ACIMA É A VISÃO QUE TEMOS DA CHAPADA DO ARARIPE, A PARTIR DA NOSSA "VILA ENCANTADA".

sábado, 8 de setembro de 2012

LAMPIÃO - E O SEU BANDO NÃO MATOU NINGUÉM - Por Vicente Almeida


LAMPIÃO NA CHAPADA DO ARARIPE

E por falar em saudade, eu era criança mas lembro muito bem de uma história que meu pai costumava contar, sobre os apuros dele e de alguns amigos, ao se deparar certa vez com alguns cangaceiros do bando de Lampião.

LAMPIÃO foi um bandoleiro, um justiceiro, um arruaceiro ou foi simplesmente um homem comum que de repente se viu obrigado a lavar a honra com sangue?

Fato é que são muitas as histórias contadas sobre ele, que passou de homem comum a mito nos sertões nordestinos. Seus cangaceiros andava sempre em bando ou em pequenos grupos, e esses grupos às vezes se afastavam do bando principal.

Temos notícias que homens corajosos que o enfrentavam eram enaltecidos e nada sofriam. Verdade? não sei!

Mas é verdade que na década de 30 do século XX, ele e seu bando tiraram o sossego de muitas comunidades. cidades inteiras quase eram evacuadas ao saber de sua presença nas cercanias. Vale esclarecer, que uma cidade naquela época era composta de algumas centenas de pessoas, não passavam de vilarejos.

Meu Pai (de saudosa memória), conhecido por Miguel Bernardo era homem muito respeitado pela sua honradez. Tinha muita ligação com os fazendeiros locais, principalmente aqueles cujas propriedades faziam limites com o sopé da Chapada do Araripe, dentre eles: Major Aderson da Franca Alencar, José Pinheiro Gonçalves Esmeraldo e Major Artur Pinheiro. 

Quando algum morador desses proprietários tinha dificuldades, recorriam ao meu pai para interceder por ele junto ao patrão. E Papai sempre resolvia as pendências daquele povo.

Mas vamos começar nossa história que relata um fato real, vivenciado por meu pai, e ele sempre repetia a história do mesmo jeito, como em um disco.

Exatamente na década de 30, quando o temor dos bandoleiros assolava o nordeste, meu pai e alguns amigos,  munidos de suas respectivas espingardas soca-soca tinham o costume de todo sábado à noite subir a Chapada do Araripe para caçar. Lá passavam à noite em esperas voltando somente no domingo ao cair da tarde.

Pois bem, no mês de Julho, numa noite fria de  sábado, meu pai juntou um grupo de amigos e subiram a Chapada do Araripe para uma caçada. 

Ao adentrar a mata fechada, um dos componentes do grupo pisou em uns ramos verdes estendidos no chão e sentiu que ali havia um buraco e estranhou. Em seguida se abaixou, retirou as folhas e descobriu muitas mantas de carne bovina escondidas.

Chamou a atenção do grupo: Ei gente! Tem uma coisa esquisita aqui. Quando viram aquilo, um deles que era o padrasto de papai, disse: Meninos, vamos ligeiro simbora daqui. Isso é coisa dos cangaceiros de Lampião.

Fizeram jeito para correr, mas, já era tarde demais, ouviram foi o estalar de cravinotes sendo engatilhados e uma voz autoritária falou: “Fiquem onde tão ou morre todo mundo”.

Olharam para os lados e de cada canto um homem mirava seus corpos. Eram muitas armas apontadas em sua direção, uns ajoelhados outros em pé.

Papai contava que ninguém teve coragem si quer de bater uma pestana, ou mover um dedo. Aí um cangaceiro falou:

- Nóis num vai matar ninguém se um de vocês for no Crato comprar uma saca de sal pra salgar essa carne ai.

Um cangaceiro, que parecia ser o chefe do bando, olhou para todos e percebeu o quanto eram jovens. Papai tinha uns 22 anos. alguns eram mais jovens e outros mais velhos.

Havia um que era o mais velho do grupo, o padrasto de meu pai que tinha uns quarenta anos e todos o chamavam de Tio Romão.

O cangaceiro olhou pra ele e disse:

- Você ai véi, parece ser o mais responsáve, e vai comprar o sal. Os outro fica aqui preso. Se você num vortar, eles morre, se der com a língua nos dente, e os macaco aparecer, eles morre e você também.

A noite já estava raspando a madrugada, e nessa situação, o tio Romão desceu a Serra do Araripe rumo ao Crato pensando em qual comerciante ia acordar para comprar o sal sem despertar suspeitas.

Lembrou-se de um amigo foi lá inventou uma história qualquer e voltou com a saca de sal. 

Antes de subir a Serra deu na veneta de ir falar com o Major Artur, um dos proprietário sopedâneo. Foi lá acordou o Major e explicou toda a situação finalizando, não leve soldado agora, ou morre todo mundo. O Sinhô dê um tempo de eu chegar lá e vortar com os menino.

Em seguida o Tio Romão, apesar de temeroso continuou sua marcha para encontrar os cangaceiros, afinal, a vida dos seus pupilos dependiam dele entregar o sal e libertar os companheiros caçadores.

Era quase manhã do domingo quando chegou junto ao bando com a saca de sal. Aí um dos cangaceiros perguntou:

- Então véi, tu viu algum macaco por lá? (macaco era como os cangaceiros chamavam os soldados) Ele respondeu:

-  Não Sinhô fui só comprá sá e vortei!

- Ainda bem disse o cangaceiro, pruque se tu dá cá língua nos dente, nóis ia esquartejar vocês como fizemo com essas rêis.

Em seguida mandaram que meu pai e os outros tratassem de salgar a carne. Era uma manhã fria, mas, papai contava que o Tio Romão estava suando muito e de vez em quando dizia: 

- Meninos vamos simbora, e repetia, meninos vamos simbora.

Ai um cangaceiro ouviu, notou a pressa deles e falou:

-  Qué isso aí veinho, tá com medo, você avisou os macaco foi? E ele respondia:

- Não sinhô! Não sinhô!

Por causa da desconfiança dos cangaceiros, o grupo de caçadores ficou retido até a tardinha, quando finalmente o chefe, depois de confabular com os outros falou:

- Pronto, agora nóis sabe que tu num avisou ninguém veinho, podem ir embora, e levem essas mantas de carne procês como pagamento do trabaio.

Todos saíram apressados e montaram em seus animais. Ao se distanciar do bando e chegar a estrada, cada um esporeavam mais a sua montaria com medo de possíveis tiros, que felizmente não houve.

Quando chegaram na cabeça da ladeira do Belmonte, estava anoitecendo e a força policial ia subindo. Interrogaram os caçadores que disseram onde haviam deixando o bando de Lampião.

Somente naque hora, o padrasto do meu pai informou a todos, que havia avisado ao Major Artur, e pedido ajuda policial, pois achava que não iam voltar com vida.

Era por isto que estava suando e apressado para voltar, por que se demorasse demais, ou se a polícia chegasse antes da hora, certamente todos iam morrer dizia ele.

Passado o grande susto, e já na descida da ladeira, quebraram o silêncio e começaram a conversar.

Então meu pai perguntou ao seu primo Miguel Gomes (de saudosa memória):

- Migué, tu tá trazendo na tua sela uma panela de feijão fervendo? e ele respondeu:

- Deixe de ser besta homi, o medo destemperou minha barriga e eu tô aqui nessa sela, cagado e mijado, mas cum vida graças a Deus.
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E foi assim que aconteceu. Meu pai disse que nunca mais, qualquer um deles manifestou vontade de ir uma caçada noturna na Chapada do Araripe, mesmo depois que Lampião morreu. Por outro lado, se o grupo tivesse morrido naquele tempo, eu não estaria aqui contando esta história. Meu pai não teria me gerado doze anos depois.

Escrito por: Vicente Almeida
08/09/2012

Um comentário:

  1. Eh...

    Quando nasci Lampião já era uma lenda. Entretanto suas peripécias ainda assombravam o sertão como se vivo fosse.

    Eu, menino aos oito anos não podia ouvir falar em cangaceiro que corria para me esconder na saia da minha mãe. Fui um daqueles matutinho de pé de serra.

    Meu pai foi o maior amigo que tive em vida. Sempre me ensinava a me conduzir com honradez diante de qualquer situação.

    Tinha um caráter e uma bela filosofia de vida indo sempre em socorro dos que lhe solicitavam ajuda.

    Era um maravilhoso PAI. Me passava ensinamentos profundos, que não compreendia nem sabia de onde ele tirava. Hoje compreendo tudo que ouvi dele e todos os dias agradeço a Deus por ele ter sido MEU PAI.

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